terça-feira, 13 de setembro de 2016

EPISÓDIO 16


No Episódio Anterior...
Ainda não obtivera dela nenhuma palavra. Nenhum agradecimento pelas regalias que lhe proporcionava. Nenhum pedido a mais, que ele ficaria feliz em escutar, e que usaria de todo o seu poder para satisfazer. Nada. Os momentos que passava ali eram de total silêncio.
O Supervisor sentia-se confuso, perdido. Já conseguira vencer a resistência de inúmeras “aquisições” com muito menos. 
E, daquela, nem conseguira sabia o nome...



A HORA DAS SOMBRAS
de

Luiz Antonio Aguiar



                                O comunicador no pulso do Supervisor vibrou suavemente. A reunião esperava por ele para começar. Ele pressionou um pequeno botão na microtela e disse, secamente:
                - Já vou!
                A seguir, retirou-se, sem dizer nada, nem voltar de novo os olhos para Liana. Por todo o tempo, a garota o havia ignorado. Não levantou sequer a cabeça do livro que estava lendo. Chokita, que estivera observando, entre idas e vindas para cuidar de seus afazeres, surgiu dos fundos do apartamento com cara de preocupação. Não se conformava com a atitude de Liana:
                - Patroa! – exclamou, reprendendo-a, logo ao entrar. Mas, Liana, iguialmente, ignorou-a. Choikita balançou a cabeça e disse: - Ele ainda vai se cansar dessa sua teimosia. Aí, a vida boa acaba. Para nós duas. O que ele está querendo que pode ser tão ruim assim para a senhora? Ele poderia forçar, entende? Não faz isso! Ele é bom!
                Liana engoliu em seco. Mas, conteve-se, não respondeu. Estava confusa. Percorreu a sala com os olhos, detendo-se na estante. Reconhecera aqueles livros. Lera alguns deles com seu pai, em voz alta, para ele escutar. Ou então ele é que os lera para ela. Eram momentos só deles, em que o pai parecia muito feliz. Apesar de, vez ou outra, ter se voltado subitamente para ele, ao pressentir que ele estava chorando. Mas, as lágrimas que desciam do rosto dele tinham uma estranha beleza. Eram lindas lágrimas.
                Feito as que escorreram pelas faces da garota, agora.  
                Que tinham como fundo, o seu sorriso.

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[16... continua]

                - Não é que as outras garotas passem fome aqui... Não! – insitia Chokita. –  Tanto que ninguém quer ir embora. Voltar pras ruas? Um pesadelo. Nem pensar.   E você não ia gostar do harém, patroa. Não tem o que tem aqui. Nem de longe! A senhora está querendo largar a sorte grande. E se for parar num centro de lazer, então? Pior ainda.  
                Liana mal a olhou. Chokita balançou a cabeça, resmungando. Retirou-se, então, por instantes, e retornou trazendo um dos presentes que o Supervisor dera a ela. Liana nunca a tocara, aquela blusa de seda vermelha e rendas, quase transparente. Por provocação, Chokita a deixou sobre um dos sofás da sala. Sempre que o Supervisor a prevenia que iria fazer uma visita, a garota insistia para que Liana a usasse.
                Daí, fazia questão de apregoar a maciez do tecido. Mas, Liana, invariavelmente, de tudo o que havia nos armários, apegara-se a uma calça jeans  desbotada, larga e confortável, tênis planos e camisetas básicas.
                Chokita se encarregara de explicar para Liana todas as comodidades que   havia naquele apartamento. Por exemplo, numa saleta anexa, enorme telão de tevê, que se abria como se planasse no ar acoplado ao som ambiente, brotando dos rodapés. O Condomínio colocava à disposição dos clientes cinco centenas de canais do mundo inteiro, além de uma imensa seleção de filmes e programação variada. Liana gostava de assistir aos desenhos animados e a algumas transmissões internacionais de esportes – mesmo sem entender a maioria dos jogos. E Chokita não perdia  a chance:
                - Antes de vir trabalhar para a senhora, eu nem sabia que tevê existia. No harém não tem disso. E na rua é pior. A gente passa fome. E fica doente, como quando a senhora chegou aqui.
                No terraço, a piscina  tinha regulagem de temperatura a gosto,  e podia receber água direto de uma cascata,  num jorro forte, espumoso, além do minitobogã e do maroleiro, para criar movimentos na superfície.
                O quarto tinha uma enorme cama redonda, com lençóis que deslizavam sobre a pele, e  espelhos nas paredes e no teto. Liana se sentia espiada ali. Por isso, às vezes, dormia sobre o tapete da sala, para horror de Chokita.  Havia ainda o programador de refeições, na tela do qual se poderiam encomendar diferentes pratos, de um cardápio que mudava toda semana. E ainda os diversos frigobares, um em cada ambiente, com sucos de frutas, refrigerantes, e os pratinhos de doces, bombons e balas, trocados diariamente. 
                - Nenhuma das outras garotas tem tanto luxo, patroa! E aí...? Gosta mais da rua, é?

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[16... continua]

                Liana sentia-se curiosa de ver tudo, experimentar tudo. Mas, continha-se. Não queria dar o braço a torcer.
                No entanto, havia os livros. Eram o tesouro que descobrira, naquela vida. Os livros encadernados pelo seu pai. Como se ela o tivesse reencontrado.
                - Acho que não precisa de muita coisa para deixar o Supervisor contente! Posso ensinar tudo a você. Sabe, é para isso que estou aqui.
                Liana jamais respondia, e Chokita impacientava-se...
                - Ora, não entendo você, patroa. Parece que gostava da rua. Nem quis jogar fora as roupas que estava vestindo, quando chegou aqui. Tudo rasgado. Tudo fedido. Tudo imundo! E a senhora guardou. Pra quê?  Olha esta blusa...! Por favor, patroa! É demais, não é? Queria tanto que fosse minha ...
                As roupas com que chegara. Ela as guardara emboladas, numa gaveta. Quase saíra no tapa com Chokita para impedir a garota de jogá-las fora.
                Ainda na delegacia, Liana recebera uma alta dosagem de antibióticos. Passara dois dias, estirada numa cela, delirando. Muita, muita febre. Muito, muito medo.
                Úgui.
                Não soubera mais de Úgui.
                A última lembrança que tinha do garoto era bastante vaga. Ele se abraçara a Liana, na delegacia. E a garota sentia dor no corpo inteiro, naquela  hora. As imagens da surra que Úgui levara eram quase um sonho. Não tinha certeza se aquilo tinha acontecido, ou não. Ela o vira apanhar, e sangrar, e continuarem a bater nele. A chutá-lo, mesmo imóvel. Inerte.
Úgui podia estar morto, ela não sabia. Mas, compreendeu que o punhal que encontrara enfiado no short só poderia ter sido posto ali por ele.
                O transporte até o condomínio havia sido feito na caçamba de um veículo fechado. Liana saltara na garagem subterrânea e dali fora levada para a sala de banhos. Uma ducha forte. A seguir, deram a Liana roupas bonitas, cheirosas, novas. Mas, a garota não largava as que viera vestindo. Chorava, mordia... Acabaram deixando que ficasse com elas. Ainda estava doente – um resto de febre, alguma fraqueza. Não eram as roupas que importavam, mas o punhal escondido no meio delas. Era a lembrança que ficara de Úgui.
                Da sala de banhos, foi conduzida para outra, um ambiente atapetado, deixado na penumbra. Não havia móveis. Ficou sozinha ali, diante de uma enorme vidraça, sentindo que a observavam, do outro lado. Encolheu-se, então, num canto, quieta. Poucas horas depois, estava instalada no apartamento da cobertura. 
                Chokita já a esperava. Apresentou-se, falava sem parar na sorte de Liana por estar ali. Liana decidiu que não conversaria com ela. Então, viu os livros na estante.

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[16...continua]

                O Supervisor apareceu no final daquele primeiro dia.  Ficou alguns minutos, calado, observando-a rearrumar os livros nas prateleiras, depois conversou alguma coisa com Chokita e foi embora. Voltaria no dia seguinte. E todos os dias, várias vezes por dia.
                Os livros faziam Liana sentir algo familiar à sua volta. Algo que pertencia à sua vida. Oi pelo menos, à vida que vivera até pouco tempo. Depois, o desaparecimento do pai, ela se sentindo abandonada, sozinha, indefesa, e mesmo assim precisando sair para as ruas, e deixar para trás sua casa... para sempre. O shopping, Úgui, momentos bons, momentos de medo. Havia o medo. Lembrava-se que ficara muito assustada quando começou a passar mal. Teve medo de morrer. Medo de que Úgui a abandonasse. Medo de que ele morresse e ela ficasse sem ninguém. Tudo, entre a casa onde vivera com o pai e o reencontro dos livros se resumiu de repente na sensação mais forte: medo.
                - Estou avisando, patroa! – insistiu Chokita. – Se a gente for para o harém, você vai ter saudade daqui. Bom como aqui, nunca mais! Isso, se não voltar pras ruas. Daí, é o inferno. Você não quer isso, quer, patroa?  Vai ser muita besteira, se jogar fora o que a sorte deu a senhora, sabia? Uma besteira enorme!
                Liana encarou Chokita com raiva. Então, apertou o livro no peito. Gostava dali. Tinha medo do Supervisor. Mas, não era um medo que ela não entendesse. De algo desconhecido, que pudesse acontecer de repente. Era um medo diferente. E se lhe tirassem os livros?...
                “Não!”, decidiu. “Não quero perder mais nada. Nunca mais!”.
                Chokita não acreditou quando a viu levantar-se, dirigir-se ao sofá e apanhar a blusa de seda vermelha. Experimentou-a no corpo. Viu como se sentia... Sim, estava decidida. Chokita começou a dar pulinhos e a bater palmas, entusiasmada.
                 Liana vestiu a blusa.
[Dia 29...Episódio 17]

No Próximo Episódio A Briga vai pegar de vez...
Sobre uma mesa, Zuca estava se contorcendo feito uma serpente, com o peito e o estômago varado de bala. Era inacreditável a quantidade de sangue que  jorrava de seus ferimentos. Junto da mesa, Zeromeia e Zerossix comentavam justamente isso, se perguntando quanto mais sangue o policial baleado poderia perder, quando Bazu debruçou-se sobre ele, os olhos esbugalhados, os punhos cerrados de fúria, a voz rouca:
                - O pessoal do Condomínio prometeu mandar um médico. Aguenta, Zuca. Só mais um pouco. Não me deixa! Somos a Grande Dupla, lembra?




EPISÓDIO 17

No Episódio Anterior

                Liana encarou Chokita com raiva. Então, apertou o livro no peito. Gostava dali. Tinha medo do Supervisor. Mas, não era um medo que ela não entendesse. De algo desconhecido, que pudesse acontecer de repente. Era um medo diferente. E se lhe tirassem os livros?...
                “Não!”, decidiu. “Não quero perder mais nada. Nunca mais!”.
                Chokita não acreditou quando a viu levantar-se, dirigir-se ao sofá e apanhar a blusa de seda vermelha. Experimentou-a no corpo. Viu como se sentia... Sim, estava decidida. Chokita começou a dar pulinhos e a bater palmas, entusiasmada.
                 Liana vestiu a blusa.


Episódio 17

                Quando o motoboy estacionou o veículo de traslado em frente da Delegacia do Setor 12, ainda acreditava que estava atravessando uma fase de muita sorte. Primeiro, conseguira tomar a bordadeira do outro motoboy, e isso o segurara no emprego no Condomínio Fortificado Atlântica Sereia. E agora, intermediar uma aquisição do DELEX iria lhe garantir uma boa comissão – mesmo descontando a mordida do gerente do Departamento.
                Então, foi logo na entrada que tomou o esbarrão de Bazu que o projetou de costas no chão. O policial, transtornado, o agarrou pela gola da jaqueta e suspendeu-o, berrando:
                - O médico! Você é o desgraçado do médico?
                Em pânico, o motoboy (que, por ironia, estava dirigindo uma camioneta com caçamba, neste serviço extra, e não sua moto), sacudiu a cabeça negativamente. Bazu atirou-o longe e correu de volta para dentro. Sobre uma mesa, Zuca estava se contorcendo feito uma serpente, com o peito e o estômago varado de bala. Era inacreditável a quantidade de sangue que  jorrava de seus ferimentos. Junto da mesa, Zeromeia e Zerossix comentavam justamente isso, se perguntando quanto mais sangue o policial baleado poderia perder, quando Bazu debruçou-se sobre ele, os olhos esbugalhados, os punhos cerrados de fúria, a voz rouca:
                - O pessoal do Condomínio prometeu mandar um médico. Aguenta, Zuca. Só mais um pouco. Não me deixa! Somos a Grande Dupla, lembra?
                - Não contaria muito que esse tal médico viesse da Zona Oeste até aqui só para atender uns tiras baleados, sabe? – atreveu-se a comentar Zerossix.
                Bazu voltou-se para ele com um rugido que fez o delegado se encolher, sobressaltado. Havia outros policiais da 12ª feridos, mas nenhum com a gravidade de Zuca, que, no auge da excitação, não se contivera e saltara de dentro do blindado, com a metralhadora, e por isso recebera uma rajada em cheio do blindado adversário.

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 [continua...17]

                - Eu avisei para vocês não se meterem no território da 5ª! O pessoal da Delegacia do Centro leva concorrência a sério. Eu avisei!
                - Mas nós chegamos primeiro! – berrou Bazu. – Dois bandos de pivetes se matando. Nessa escassez de presas, não dava pra desperdiçar, não é? Quando começam a brigar, ficam loucos. Não se separam nem com a gente caindo com as redes em cima deles. E aí? Íamos esperar os bonecões da 5ª chegarem?
                O motoboy entrou, hesitante, na delegacia. A cena daquele homenzarrão numa mesa, estrebuchando, e do outro agarrado nele, já ensopado de sangue também, às lágrimas, o assustou. Mas, com esforço, conseguiu se convencer que, se aquela confusão toda não era com ele, devia era tratar de seu negócio ali e sair o mais depressa que pudesse.
                - E daí? – berrou de volta zerossix, já encarando Bazu. – Os bandos andam sem comida! Estão se pegando toda noite. Deveriam esperar uma chance aparecer no nosso território. Vocês bobearam!
                - Seu cretino! -,  vociferou Bazu, partindo para cima do delegado. Zerossix desceu a mão ligeiro para o coldre e sacou sua pistola. Bazu foi agarrado por Zeromeia e outros. Por instantes, ainda se debateu, urrando de ódio e frustração, mas em seguida acalmou-se. Pelo menos, um pouco.
                - O pessoal da 5ª já chegou atirando em nós. Nem se preocupou com os moleques. O Zuca saiu do blindado... foi mal... mas eles provocaram. Quem eles pensam que são? Zuca furou uns três, antes de o pegarem. Canalhas!
                -  Era o território deles.  Vocês estavam invadindo. Não podiam capturar presas que eram deles!
                Foi quando o motoboy resolveu que tinha de tentar chamar alguma atenção, ou ficaria ali para sempre, assistindo à discussão. Aproximou-se então de Zerossix e arriscou:
                - Me mandaram do Condomínio para pegar...
                Zerossix empurrou-o de lado, sem nem escutá-lo. Mas, havia se acalmado um pouco,  agora.
                - É uma pena. Muita gente aqui não gostava do Zuca. Sabe como é... Essa mania dele de matar primeiro...! Mas, eu dizia: “Vocês estão enganados! Se  a gente entregar todos os moleques, o preço volta a baixar. No final das contas, o Zuca aumenta nosso lucro!
                - Ei, xerife! – disse alto o motoboy. – Vim aqui tratar de negócios. Danem-se os problemas de vocês!

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 [continua...17]

                Zerossix voltou para ele, ao mesmo tempo, o olhar e a mira da sua pistola, já calculando se poderia alegar ao gerente do DÊ-SEX que o seu motoboy haveria levado um tiro na testa por acidente. Mas, logo reconsiderou: “Garoto de entregas novo ... ainda cheio de pose...!”
                - Sou representante do Condomínio! – protestou o motoboy. – Onde está o garoto?
                Mal Úgui foi trazido para a sala, Bazu saltou sobre ele, em fúria, agredindo-o com socos e chutes:
                - A culpa é desses animaizinhos! – gritava o policial. – Eu quero matar ele!
                - Esse aí já está vendido, Bazu! – berrou Zerossix, e de novo os tiras tiveram trabalho para contê-lo. Foi um custo tirá-lo de cima do garoto.
                Sobre a mesa, Zuca soltou um último grunhido.  Seu corpo se arqueou, tenso, para cima por um breve instante, depois desabou. Estava morto.
                Bazu olhou sem reação para o cadáver. Seus ombros e braços arriaram. Sua cabeça pendeu. Alheio a tudo, o motoboy examinava Úgui, que desmaiara com os golpes recebidos.
                - Se algum osso dele foi quebrado, a compra está desfeita! O gerente disse que vocês não estão cuidando direito do material que entregam. Aquela garota do mês passado estava doente!
                - Ora! – disse, sorrindo, Zerossix, e dando palmadinhas nas costas do motoboy. Odiava adular empregados do Condomínio. Mas, isso fazia parte do negócio.  – Ela já saiu daqui quase sem febre!
                - Liana! – sussurrou Úgui, remexendo-se.
                Fora por muito pouco que o garoto conseguira sobreviver ao espancamento que sofrera logo que chegara à delegacia. Não recebera nenhum tratamento. Toda vez que sentia a vida lhe escapando, chamava por Liana – para lhe dar sorte, ou talvez, força, vontade de viver. “Acho que era assim que o pessoal de antigamente rezava”, pensava. Todo o seu desejo de se recuperar estava ligado a tentar escapar e ir procurar a garota.
Somente quando os policiais foram comunicados do interesse de seu cliente em adquiri-lo, se preocuparam em dar-lhe algum atendimento – soro, analgésicos.  Fizeram curativos. A essa altura, o forte organismo de Úgui já havia reagido e ele estava praticamente restabelecido.
                E agora, finalmente escutava um comentário sobre Liana. Fosse para onde fosse que seria levado, ela estaria lá também.
                - Liana!... – murmurou de novo o garoto.
                - O que foi que ele disse? – quis saber o mensageiro.
                - Está chamando alguém, acho – respondeu Zeromeia. – Demora até aprenderem a falar direito.
                - E, se está falando – apressou-se a acrescentar Zerossix -, é porque está saudável. Negócio fechado, certo?
                Resmungando “sim, negócio feito”, até por não querer perder a comissão que já contava faturar, o motoboy  algemou Úgui e arrastou-o para fora. O garoto ainda estava meio zonzo. O motoboy empurrou-o para dentro da caçamba do transporte.
                Dentro da delegacia, Bazu despertou de repente de sua letargia e agarrou sua metralhadora, chamando em voz alta:
                -  Quem vem comigo vingar o Zuca?
                Ninguém se mexeu. Bazu xingou todos eles aos berros e saiu. Logo, partia em seu blindado, roncando o motor, enquanto lá dentro o delegado Zerossix corria para o comunicador.
                - Alô, 5ª Delegacia! Alô, amigos e colegas do Centro! Lamentável o incidente hoje. Mas, ninguém quer que isso vire uma guerra de tiras, certo? Então, um aviso para vocês. Um policial daqui perdeu a cabeça com o que aconteceu. É o parceiro do tira que vocês fizeram de peneira. Portanto, cuidado. Ele saiu daqui jurando vingança. Está num blindado, mas não representa esta delegacia. Repito, ele não está em serviço, nem a mando oficial da 12ª! É tudo por conta própria dele! Repito! Não se trata de um ataque oficial! Façam o que quiserem com o cara, mas não vão fofocar para os patrocinadores, dizendo que estamos metidos nisso! Nada oficial, repito!


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 [continua...17]


                Meia hora depois de deixar a delegacia, o motoboy entrava com seu veículo na garagem subterrânea da Torre das Mansões Verticais, onde deveria entregar sua encomenda. Estranhou não haver guardas nas guaritas de vigilância do conjunto de prédios, nem na rampa da garagem. Mas  já considerava seu serviço feito, encomenda entregue, a sua comissão paga na mão. Ou seja, era mesmo seu dia de sorte, pensou, e, com esse estado de ânimo, sacou sua arma e foi abrir a caçamba do veículo.
                Se fosse mais experiente em traslados, teria seguido as normas e requisitado reforço para retirar o garoto do veículo. No mínimo, saberia que todo cuidado é pouco, quando se trata de alguém criado nas ruas, acostumado a vencer uma guerra por dia, todo dia.
                De dentro da caçamba, Úgui não foi atrapalhado pelas algemas, no bote que deu na garganta do motoboy, derrubando-o no chão. A pistola correu para longe, enquanto, com um brilho feroz nos olhos, que deixou o motoboy paralisado de terror, Úgui forçou as correntes das algemas contra o pescoço dele, montado em sua barriga, fincando-o no solo, imobilizado.
                - A garota? Onde está a garota? Diz!
                O motoboy estendeu os dedos de uma mão, tentando alcançar a pistola. Furioso, Úgui jogou o peso do seu corpo sobre as correntes, esticando-as contra o pescoço dele. Um estalo, e a traqueia do motoboy partiu-se. A língua e os olhos dele se espicharam para fora. A cabeça, com o pescoço frouxo, pendeu para o lado. Não foi, afinal de contas, seu dia de sorte.
                - Droga! O fracote morreu! – lamentou-se Úgui.
                A seguir, remexeu na sacola do mensageiro, procurado as chaves das algemas – as que ele vira usando para abri-las, quando as colocara nele, na delegacia. Encontrou, logo descobriu como usá-la, soltou-se e se levantou.
Por instantes, considerou apanhar a pistola. Vira tiras brincando com suas armas, na delegacia, mas jamais usara algo como aquilo. Resolveu que estaria melhor sem ela. 
                Olhou em volta. Não tinha a menor ideia de onde viera parar. De repente, um ruído atrás de si o fez girar o corpo, já com o corpo preparado para a luta.
                O velho paralisou-se, espantado, tanto com Úgui, eriçado como uma ratazana acuada, quanto com o corpo retorcido, no chão.
                - Calma, garoto! – disse, erguendo os braços. A ferocidade no rosto de Úgui foi o bastante para impressioná-lo. – Sei que a gente pode resolver nosso probleminha... se tiver calma.
                Era o engenheiro das piscinas. Em seu bolso, estava o memorando, notificando-o sumariamente que acabara de ser demitido e que deveria deixar imediatamente as instalações, sob pena de detenção.

 [04 de Março... Episódio 18]



No próximo Episódio

Seus músculos já estavam prontos para explodir. Depois de semanas jogado no chão frio da delegacia, estava de novo livre, em estado selvagem, ofegante, cheio de ódio. E de medo. 
                Havia matado o motoboy, poucos instantes antes. Matar era uma coisa que ele não fazia desde a última batalha de bandos da qual participara. Mas, era evidente que não se esquecera como fazer. Para o engenheiro das piscinas, o cadáver contorcido do motoboy era prova de que ele não deveria subestimar aquele garoto.




EPISÓDIO 18

No Episódio Anterior...
Úgui invade  covil -executivo!

                De dentro da caçamba, Úgui não foi atrapalhado pelas algemas, no bote que deu na garganta do motoboy, derrubando-o no chão. A pistola correu para longe, enquanto, com um brilho feroz nos olhos, que deixou o motoboy paralisado de terror, Úgui forçou as correntes das algemas contra o pescoço dele, montado em sua barriga, fincando-o no solo, imobilizado.
                - A garota? Onde está a garota? Diz!
                O motoboy estendeu os dedos de uma mão, tentando alcançar a pistola. Furioso, Úgui jogou o peso do seu corpo sobre as correntes, esticando-as contra o pescoço dele. Um estalo, e a traqueia do motoboy partiu-se. A língua e os olhos dele se espicharam para fora. A cabeça, com o pescoço frouxo, pendeu para o lado. Não foi, afinal de contas, seu dia de sorte.
                Olhou em volta. Não tinha a menor ideia de onde viera parar. De repente, um ruído atrás de si o fez girar o corpo, já com o corpo preparado para a luta.
                O velho paralisou-se, espantado, tanto com Úgui, eriçado como uma ratazana acuada, quanto com o corpo retorcido, no chão.
                - Calma, garoto! – disse, erguendo os braços. A ferocidade no rosto de Úgui foi o bastante para impressioná-lo. – Sei que a gente pode resolver nosso probleminha... se tiver calma.
                Era o engenheiro das piscinas. Em seu bolso, estava o memorando, notificando-o sumariamente que acabara de ser demitido e que deveria deixar imediatamente as instalações, sob pena de detenção.




EPISÓDIO 18


                Chamava-se Charles D. 
Ou CÊ-Dê.
                Estrangeiro, de fato, com um fortíssimo sotaque. Mas, vivia na Meridional/B há quase quarenta anos. Viera para cá quando o país ainda possuía seu próprio nome e ainda era possível apaixonar-se pela vida por aqui. Depois, acomodado, fora ficando, e trabalhava há quinze, no Atlântica Sereia. Sua função, de acordo com suas palavras, era: “Manter quentinha e limpinha as piscinas das safadezas dos executivos”.
                O fato é que CÊ-Dê tinha todas as razões do mundo para não querer ser morto, naquela noite. E nenhuma para se arriscar a proteger a segurança do Condomínio, tentando dar um alarme.
                Assim, permaneceu absolutamente imóvel, de braços erguidos, de modo a deixar claro para Úgui que não representava ameaça para ele.
                Já Úgui, só de olhar, percebeu que o velho não tinha exatamente medo dele. Que, por alguma razão, estranhamente não era seu inimigo. Seus músculos já estavam prontos para explodir. Depois de semanas jogado no chão frio da delegacia, estava de novo livre, em estado selvagem, ofegante, cheio de ódio. E de medo. 
                Havia matado o motoboy, poucos instantes antes. Matar era uma coisa que ele não fazia desde a última batalha de bandos da qual participara. Mas, era evidente que não se esquecera como fazer. Para o engenheiro das piscinas, o cadáver contorcido do motoboy era prova de que ele não deveria subestimar aquele garoto.

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[Continua...18]

                - Posso ajudar você a fugir daqui... – disse, com voz lenta, tranquilizadora, CÊ-Dê.
                Úgui procurava entender a situação. Por exemplo, onde estava. E por que aquele velho falava com ele naquele tom de voz e o olhava tão mansamente.
                A garagem subterrânea do Condomínio tinha paredes metálicas, luzes fluorescentes, exaustores para limpar o ar e temperatura controlada em torno de 20ºC.  Julgara-se que seria um gasto a se evitar, instalar ali um sistema de segurança mais complexo, com sensores de movimento e câmeras interligadas a uma central, já que, para chegar até ali, fosse quem fosse teria de vir pela Via Expressa, intensamente monitorada.
A administração sempre achara que as guaritas da entrada – que excepcionalmente encontravam-se vazias – deveriam bastar para qualquer situação que chegasse até aquele ponto. Jamais imaginaram que um garoto capturado saltaria da caçamba de um veículo de transporte para se tornar uma ameaça infiltrada e à solta, justamente na Torre residencial do Condomínio Fortificado. Depois do incidente, iriam rever o protocolo de segurança. No momento, não sabiam que estavam sendo invadidos, que Úgui se acostumava rapidamente a respirar o ar purificado do ambiente, que compreendera que estava num lugar diferente de tudo o que conhecia e que aquele velho sorrindo para ele estava lhe oferecendo ajuda.
                - ... Mas, precisamos nos apressar! – alertou CÊ-Dê. – A cada dez minutos, a segurança passa por aqui, nas motos. A garagem executiva é aí do lado. Aqui é a de carga e a dos funcionários, mas, mesmo assim, não entendo como ainda não apareceram. Eu levo você até a saída. Daí, você escapa e todos permanecemos vivos. Que tal?
                - Liana...?  – murmurou Úgui, brandindo a arma, apontada para o velho.
                -  Como é que é?
                Úgui fez um esforço extra para se conter e disse, com voz pausada, esperando que o velho pudesse, assim, entender:
                - Garota... magra... bonita ... com febre. Chegou com febre. Cabelos lisos. Chegou faz pouco tempo ... Liana!
                CÊ-Dê abriu a boca – e a deixou aberta – de tanto espanto. Se entendera direito, o garoto não queria fugir. Estava procurando alguém. Uma garota... E era CÊ-Dê quem fazia a manutenção da piscina da cobertura. E da suíte anexa. Uma garota que chegara há um mês e meio. Sim... Ele deu uma gargalhada.
                - Você veio pegar a “paixão do Chefe”!
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[18...Continua]

                E o chefe, o supervisor, era exatamente o sujeito que tomara a decisão de demiti-lo.
                - Parece que temos um desafeto em comum, rapaz – disse CÊ-Dê. – Então, agora não vou ajudar você somente porque preciso, mas porque quero. Mas, precisamos andar depressa. Entende? Depressa! Vamos esconder o corpo desse coitado na caçamba do veículo e pegar o elevador de serviço. Mas, tem de ser depressa. Tente entender o que estou dizendo!
                - Liana! – respondeu Úgui, assentindo.
                No apartamento da cobertura, muitos andares acima, Chokita deixara Liana sozinha, mas já vestida com a blusa de seda e toda arrumada. E Liana aproveitava que o olhar de Chokita não a seguia para conversar com os livros e perguntar a eles o que achavam do que estava pensando em fazer.
                Seu pai... Ele vivia recontando a história de como a mãe de Liana fora embora. E para sempre. Muitas e muitas noites, o pai da garota passara chorando, com o retrato da mulher nas mãos. Nunca se conformara de tê-la perdido. Ficava se perguntando o que deveria ter feito para que isso não acontecesse. Não encontrava respostas. Naquelas noites, sob os lamentos do pai, Liana fingia que dormia. Mas, sofria junto com ele, ao longo de cada madrugada. Não havia explicação para que a mãe a tivesse abandonado. Nem para o sumiço do pai.
                Agora, naqueles livros encadernados, ela sentia a presença dele novamente. Apertou novamente o livro contra o peito – um gesto bem seu, nas últimas semanas - , como se pudesse entrar dentro dele, esconder-se dentro do livro. Então, pensou:
                “Nunca mais vou perder coisa alguma!”...
                A imagem de Úgui atravessou sua mente. Liana sentia falta dele. Mas, era uma recordação que doía, que vinha junto com muito medo, com ameaças flutuando no ar que somente começaram a existir, para ela, quando conheceu o garoto.
                De repente, teve medo de que Chokita tivesse encontrado seu tesouro escondido. Ergueu-se, sem soltar o livro, correu para o seu quarto, abriu a gaveta onde estavam suas roupas antigas, emboladas... Não. Medo sem razão. A lembrança que guardara de Úgui continuava ali. Um punhal.
                Quase prontamente, soltou um soluço assustado: a lembrança que guardava do garoto tinha a ver com perigo e morte.
                Chokita fora chamar o Supervisor. Antes, havia penteado e maquiado Liana, enquanto  lhe ensinava como achava que a garota devia fazer para agradar ao chefe. Aquilo deu medo a Liana. E nojo. Mais nojo do que medo.
                Escondeu então o punhal entre as almofadas da sala. Mas, estava decidida a não perder mais nada. “Mais nada!”, repetiu para si mesma. E de novo: “Nunca mais! Nunca mais!”.
                Foi nesse momento que um estalido na claraboia envidraçada  que dava para a varanda  coberta, onde ficava a piscina, chamou sua atenção e a fez se voltar...


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[18...continua]
                CÊ-Dê conduzira Úgui pelos corredores de serviço. Também ali não havia câmeras de segurança. Finalmente, chegaram ao terraço do apartamento A-1 e CÊ-Dê indicou a claraboia:
                - Daí, você cai na varanda, e de lá, para dentro do apartamento. Uma última coisa ... – disse CÊ-Dê, detendo Úgui que já ia  abrindo impetuosamente a claraboia. – Já escutei muitas conversas dessas meninas. Elas se sentem felizes aqui. Não é a toa, sabe?
                Úgui, com um safanão zangado, soltou-se de CÊ-Dê. O velho insistiu:
                - Entenda! Lá fora, você sabe como é... Só estou dizendo isso para você pensar que, talvez... Bem, a sua garota pode não querer voltar com você para as ruas. Escute... não se aborreça comigo. O que estou querendo dizer é que vocês não precisam voltar para as ruas. Sei de uma coisa...É somente um boato, conversa de funcionários em hora de folga. Mas, tanta gente comenta que... Quem sabe? Tem um outro jeito, sabe?
                Aquele senhor intrigava Úgui. Sentia que ele estava do seu lado, e isso era tudo o que importava, no momento. E CÊ-Dê continuava a falar, a falar... Até que o ex-engenheiro das piscinas disse:
                - Ouviu, então? Entendeu tudo o que eu contei a você...? Olha, vou esperar você por uma hora. Tenha cuidado, filho!
                Úgui fez que sim com a cabeça e soltou um resmungo. Que também poderia ser um rosnado de quem está preparado para tudo, até mesmo para morrer... Não gostava daquele clima de despedida. O velho o fazia sentir coisas estranhas... Coisas que o incomodavam. Não queria pensar nisso agora.
                - Tudo bem, não precisa agradecer! – disse CÊ-Dê, com um sorriso. – Foi um prazer. Vá pegar sua garota... Vá!
                Um instante depois, quando Úgui, vindo da varanda, saltou para dentro da sala,  Liana soltou um grito abafado. A garota assustou-se e tentou correr. Úgui quase não a reconheceu, maquiada por Chokita, os cabelos penteados, usando a blusa de seda... Mas, no momento seguinte deu um bote sobre ela, derrubando-a.
                - Liana – murmurou o garoto.
                Ela começou a se debater, arranhando Úgui, lutando para se desvencilhar. E Úgui não conseguia entender o que estava acontecendo. Esperava que Liana, ao vê-lo, pulasse sobre ele e o abraçasse. Mas, ali estavam,  brigando, ela chutando-a, dando-lhe tapas. Rolavam no chão, e Úgui não conseguia contê-la. Nem acalmá-la.  Ele a  a jogou longe, montou em cima de seu estômago e só então conseguiu imobilizar a garota. E...
                ... E a beijou. Liana parou de lutar. Lágrimas quentes começaram a descer pelas faces dela, quando a garota o abraçou, aceitando seu beijo.
                - Liana – disse. – Vim buscar você. Eu disse que tudo ia ficar bem, não disse?
                A garota empurrou Úgui para o lado, sacudindo a cabeça furiosamente.
                - Como, não? Você não quer vir comigo? Ficou doida?
                Só então sentiu o cheiro da garota. O perfume. A atmosfera do quarto. Olhou em volta, vendo tudo aquilo que estava à disposição da garota.  Ficou furioso, então.
                - Você vem comigo, sim! -  berrou Úgui, levantando-se e tentando arrastá-la para a varanda. Liana se defendia como podia. Agarrava-se a tudo, aos móveis, às almofadas... Então seus dedos se fecharam em torno do cabo do punhal que havia escondido ali. Úgui não percebeu. Descontrolado, esbofeteou a garota:
                - O que deu em você? Eu vim buscar você! Eu cumpri minha promessa! Quero você comigo! Você... é minha. Você...!
                O braço de Liana riscou o ar. Ùgui gritou de dor. A garota, horrorizada, largou então o punhal. O sangue começou a correr da garganta de Úgui, tingindo de vermelho o chão. O garoto recuou alguns passos, tropeçando nas próprias pernas, sem conseguir se equilibrar. Então, murmurou, com toda a tristeza que poderia caber dentro dele:
- Liana... -, Úgui gemeu.

[Dia 11/04... Episódio 19]



No Próximo Episódio
(é o PENÚLTIMO... está chegando o espetacular clímax de A Hora das Sombras!!)
No Condomínio Fortificado Atlântica Sereia, o Confronto:
Liana  ... Úgui... O Supervisor...
Enquanto isso, na cidade em ruínas... Começa uma GUERRA de policiais...
E você vai estar no meio dessa encrenca toda!!!


E vem aí...





Não se brinca com o Mal,
Quando ele pode sair pra fora do Jogo...



EPISÓDIO 19



No Episódio Anterior

                O braço de Liana riscou o ar. Ùgui gritou de dor. A garota, horrorizada, largou então o punhal. O sangue começou a correr da garganta de Úgui, tingindo de vermelho o chão. O garoto recuou alguns passos, tropeçando nas próprias pernas, sem conseguir se equilibrar. Então, murmurou, com toda a tristeza que poderia caber dentro dele:
- Liana... -, Úgui gemeu.

[E com vocês...o Penúltimo Episódio!]


A HORA DAS SOMBRAS



                 Logo que foi comunicado que um policial da Delegacia 12 Sul surtara e que invadira o território da Delegacia Centro 5 com seu veículo blindado, o Operacional Unificado dos Condomínios decidiu tomar providências. Tinham por princípio, em obediência à política traçada na Matriz,  se envolverem o mínimo possível em conflitos locais. Mas, foi avaliado que uma guerra entre policiais poderia trazer consequências desastrosas.
                Mal ou bem, a polícia impunha uma primeira barreira aos “nativos”, impedindo-os de qualquer acesso à zona dos condomínios. Manter mendigos, bandos e outras perturbações distantes, como se não existissem, era um compromisso contratual e uma exigência dos executivos.
Os três complexos foram chamados a enviar efetivos. No caso do Fortificado Atlântica Sereia, submetido a uma permanente contenção de custos por determinação do seu supervisor, isso implicaria em mobilizar para a ação forças já comprometidas com funções de segurança interna. Não havia unidades de reserva, graças à permanente política de contenção de custos.
A mensagem de alerta do Delegado Zerossix, eximindo sua delegacia de qualquer responsabilidade na ação do blindado extraviado fora captada como uma ameaça à estabilidade dos arranjos locais. Com efeito, mal o policial atacou um blindado da 5ª Centro, fazendo vítimas, os policiais de lá se revoltaram, passaram por cima das ordens de seus superiores – para que se limitassem a caçar o veículo invasor – e marcharam sobre a 12ª Sul.
O Operacional Unificado enviou três helicópteros para a área de conflito. Um deles tinha ordens de guardar a fronteira entre as duas delegacias. A esperança era abater prontamente o blindado rebelado para abortar a crise. No entanto, nessa altura, Bazu já havia esquecido quem era seu inimigo, no momento, e penetrara também no território da 4ª Delegacia, que respondeu enviando um pelotão, que por sua vez entrou em conflito com o pelotão enviado pela 5ª, no momento em que o da 12ª e da 13ª atacaram, pensando que estavam fazendo fogo unicamente sobre a 5ª, mas abatendo unidades das delegacias do Centro e também do Operacional Unificado.
Quando se viu, as delegacias haviam entrado em conflagração geral, todos contra todos, sem ninguém saber ao certo quem estava no comando e contra quem estavam  disparando.

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[19 ...continua]
E, no que tocava ao Condomínio Fortificado Atlântica Sereia, o que importava  era que, para atender à convocação do Unificado, as posições internas – como as guaritas que vigiavam a entrada da garagem de carga – foram desguarnecidas. Por isso, não houve nenhuma intervenção deles em todo o episódio.
O ex-engenheiro das piscinas, CÊ-Dê, não sabia disso, ou não estaria tão nervoso, enquanto aguardava pelo retorno do garoto – com ou sem a “paixão do chefe”. Temia que a qualquer momento, seguindo a rotina, uma ronda aparecesse por lá e o detivesse.
“Devia ter dito ao garoto que só ia aguardar meia hora por ele”, recriminava-se CÊ-Dê. “Aliás, se eu tivesse juízo, ia embora agora!”...
                Já o Supervisor, em seu gabinete, alisava as têmporas, tenso, diante da situação, maldizendo os muitos problemas com que tinha de lidar, quando a secretária surgiu na tela da sua mesa, anunciando que Chokita pedia para falar com ele.
                - Mas, por que ela não me contatou pelo comunicador? – rugiu o Supervisor, sobressaltado. – O que aconteceu?
                - Não sei, senhor! – gaguejou a moça. – Mas, ela disse que é urgente. E que precisa falar com o senhor pessoalmente.
                - Mande que a tragam aqui! – disse ele, rispidamente.
                Chokita jamais estivera naquele gabinete. A rigor, aliás, não tinha permissão sequer para solicitar entrar ali. Sabia de garotas que haviam sido devolvidas para as ruas por terem se atrevido a por os pés fora da Torre. Mas, tinha certeza de que  o Supervisor gostaria de saber das novidades sobre sua patroa, e não poderia lhe contar nada com ela escutando. Por isso, venceu o medo que o olhar duro do Supervisor deixou desabar sobre ela e conseguiu falar...
                E realmente, à medida que relatava que a garota A1 o estava esperando, no apartamento, e do jeito como ele sempre quis, disposta a agradá-lo e vestida para recebê-lo, que ela tinha afinal cumprido sua tarefa... um sorriso foi se desenhando no rosto do Supervisor.
                - Você vai ser bem recompensada! – prometeu ele. – Um vestido novo. Um ano de chocolates especiais. Talvez, um colar. Vai ser promovida. Qual a sua categoria, hoje?
                - D3 – disse ela. E não se conteve mais.
                Disparou a descrever em detalhes toda a sua insistência, que por fim convencera Liana. O Supervisor não esperou que ela conseguisse se calar. Já se levantara de sua poltrona – e nem assim Chokita parava de falar. Ele não a escutava mais. Passou por ela, a caminho da porta. Chokita compreendeu que deveria segui-lo para fora do gabinete. O Supervisor deteve-se somente na mesa da sua secretária, para deixá-la a cargo das providências com Chokita, ordenando que todas as comunicações que recebesse fossem gravadas. A crise entre as delegacias ainda não havia atingido seus momentos mais dramáticos.
                - Alojamento categoria A3 para ela! Só até amanhã.  – disse, apontando Chokita. E, voltando-se para ela, ordenou: - Não apareça mais no apartamento esta noite.
                No trajeto até a Torre, pensou em levar flores – mas teria de pedir ao DELEX para trazê-las, e isso implicaria em burocracia... espera ... Não. “Além do mais, não devo parecer meloso demais. Eu venci a batalha! Eu venci!”
                Na entrada do apartamento, mudou de ideia novamente e fez menção de retornar. Mas, poderia encomendar as flores dali mesmo, e aguardaria a entrega já na companhia da garota – que finalmente, ele assim esperava, lhe diria seu nome. Que conversaria com ele.  Que lhe faria pedidos e...
                Suas mãos tremiam, quando abriu a porta, na expectativa de onde ela o estaria esperando... “Na sala?... No quarto?”... Suas pernas, ansiosamente, já se conduziam sozinhas, apertando o passo...
                E foi então que escutou o grito de Liana. E deu-se conta da presença de Úgui – que, mesmo ferido e atordoado, voou sobre ele, atacando-o. O ferimento na sua garganta sangrava ainda, mas não fora profundo. O sangue do rapaz manchou imediatamente o terno elegante do Supervisor, que ficou sem ação por um segundo... e caiu para trás sob o impacto do salto de Úgui sobre ele.


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[19 ...continua]

                O Supervisor era um homem corpulento. E não descuidava de algum treinamento físico – normas da corporação para executivos em regiões remotas. Conseguiu lançar Úgui para o lado e rolou, erguendo o tronco.  O disparador elétrico estava num bolso interno do paletó. O Supervisor sacou o dispositivo e acionou-o contra Úgui.
                - Seu... rato nojento! – rugiu o homem. – Você não sabe quem eu sou! Como se atreve a me tocar?  Pensou que a iria tomar... de mim? Ela é minha! Quem manda aqui sou eu! Mais ninguém! Eu sou o poder aqui! Eu! Sou um dos que inventaram que este país ainda existe! Só que não existe mais nada parecido com um país! É tudo mentira! E você é um dos que acreditam nessa historinha! Vai morrer por causa da sua estupidez! Vai morrer e ser atirado numa lixeira, junto com restos de comida e sacos de descarte de fezes, por acreditar nessas historinhas!  Vai morrer por nada! Você é nada! Este país é nada! 
                Úgu não entendeu uma palavra sequer do que lhe disse o Supervisor. Mesmo que compreendesse o que ele falava – o que não era o caso – não entenderia. A descarga o havia tonteado e o fez perder parte do controle de seus movimentos. Mas, ainda conseguiu voltar para cima dele, acertando um chute na sua mão, que jogou longe o disparador. A segunda pancada foi com o calcanhar, de cima para baixo, na cara do Supervisor, quebrando-lhe os implantes dentários da frente e fazendo-o sangrar. Úgui lutava contra a sensação de desmaio, contra a dor que se irradiava em aguilhadas por todos os músculos,  e, mesmo com a vista se turvando cada vez mais,  enganchou-se nas pernas do Supervisor. O disparador elétrico fora parar junto aos pés de Liana, que o apanhou por puro reflexo.
                A garota tentava fazer mira, mas suas mãos tremiam, ela chorava. A cãibra começou a se espalhar pelos braços e pernas de Úgui – efeitos do choque elétrico. E agora o Supervisor parecia reanimar-se. Com um safanão, livrou-se de Úgui. 
                Finalmente, Liana conseguiu firmar o disparador. Úgui percebeu que ela o apontava para ele. Sem poder mais reagir, quase sem fôlego, encarou a garota, que ele pensava que fosse sua, com tristeza.
“Não quero perder mais nada!”, pensou Liana.
                - Atire! – ordenou o Supervisor, cuspindo sangue e cacos de dentes. - Atire logo, coragem. Paralise o nojento.  Vou ordenar que o matem devagar, depois! Atire! Estou mandando você atirar!
                De repente, Liana girou o disparador no ar e apertou a tecla de disparo. A centelha desprendeu-se, o dardo atingiu o Supervisor no rosto. Ela continuou pressionando a tecla, repetidamente, liberando uma descarga depois da outra. O Supervisor perdeu os sentidos e desabou no assoalho, tremendo convulsivamente.




Na Próxima Semana...
O EPISÓDIO FINAL
de
A HORAS DAS SOMBRAS
No Ar dia 18/04
Todos os episódios continuarão no BLOG e no Wattpad


                                                                      Episódio 20




No Episódio Anterior

                De repente, Liana girou o disparador no ar e apertou a tecla de disparo. A centelha desprendeu-se, o dardo atingiu o Supervisor no rosto. Ela continuou pressionando a tecla, repetidamente, liberando uma descarga depois da outra. O Supervisor perdeu os sentidos e desabou no assoalho, tremendo convulsivamente.



A HORA DAS SOMBRAS

de Luiz Antonio Aguiar

(episódio final)

                Os blindados do Operacional Unificado dos Condomínios conseguiram, afinal, cercar o veículo pilotado por Bazu. Um dos helicópteros de combate baixava sobre ele, levantando poeira, para cegá-lo. Uma descarga descomunal de projéteis foi disparada contra o veículo, praticamente destruindo- o. Pouco restava da carcaça metálica.
                - Parem de gastar munição! – soltou a mensagem, o helicóptero. – Ele está fora de combate. Deve ter virado torresmo dentro dessa lata velha!
                De fato, os veículos enviados pela segurança do condomínio eram muito mais modernos e bem equipados que os utilizados pelas delegacias. E, fosse como fosse, o alvo já não respondia aos disparos.
                - Precisamos conferir! – retrucou, também pelo comunicador, o comandante da força terrestre. E deu ordem para que um grupo abordasse o veículo abatido.
                O helicóptero parou a cerca de dez metros de altura, bem em cima do blindado, dando cobertura.
                - Ele não pode estar vivo, cara! – disse o piloto, rindo, no comunicador.
                O metal da carcaça externa do veículo de Bazu estava muito quente. Equipados com luvas e roupas especiais, os homens do Operacional  o escalaram e, no topo, abriram a escotilha. Um dos seguranças pulou dentro do blindado e foi só então que enxergou o buraco na lateral interna da cabine, por onde Bazu escapara.

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                -  Tem muita fumaça aqui dentro. Não estou enxergando direito, mas acho que... aquele desgraçado...! Atenção...!
                As palavras do segurança foram cortadas por uma explosão que praticamente pulverizou o que restava do veículo e os homens lá dentro, tanto os que havia entrado nele como os que estavam no topo, junto da torre. Bazu com certeza sabia armar uma bomba de maneira a não deixar sobreviventes.
Mas, o efeito foi maior do que ele imaginara, já que estilhaços de metal foram projetadas, como se fossem arpões contra o helicóptero, acima do blindado, perfurando sua fuselagem.
                O aparelho debateu-se no ar, tentando evitar a queda, mas já havia virado uma bola de fogo descontrolada, enquanto o piloto berrava:
                - Vamos cair! Minha nossa! Vamos morrer!
                O helicóptero despedaçou-se sobre dois blindados da força do Operacional Unificado dos Condomínios, causando outra explosão que matou todos os seus ocupantes. Outros blindados em volta foram atingidos pelos destroços, transformados em perfurantes projéteis incandescentes. Os seguranças os abandonavam, em pânico, expulsos pelo calor.
                - Vai tudo explodir! – gritaram alguns, enquanto uma nuvem de poeira fervente e vapor de lama derretida elevava-se, queimando lábios, interior da boca, gargantas, traqueias, pulmões.
                Bazu saltou de dentro de  um prédio, onde se ocultara. Jogou fora o controle remoto que detonara a arapuca em seu blindado e engatilhou a metralhadora.
                - Você queria ter estado comigo, garoto? Naqueles dias, não queria? Quando a gente atirava para tudo que é lado, e os idiotas só caíam. Como se fossem feitos de papelão. Vamos lá, garoto. Você está comigo agora! Mate! Mate!
                Bazu penetrou na fumaça ardente. Sua metralhadora crepitava. Os seguranças tentavam responder aos tiros, sem enxergar nada em volta, e atingiam uns aos outros, enquanto o policial continuava atirando em qualquer vulto que se mexesse.
                Poucos sobraram vivos. Nenhum sem ferimentos. Bazu tombou depois de levar repetidos balaços. Primeiro caiu de joelhos. E continuou atirando. Atingido mais vezes, rindo alto, ainda atirava, quando finalmente a vida escapou dele e o policial caiu de cara no chão. Até o último momento, cantava a toda altura: “Nós somos a Grande Dupla!”.

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                Já o Supervisor, somente foi se inteirar da catástrofe muitas horas depois. Despertou com a manhã avançada, na sua suíte, com o corpo dormente e muita dor de cabeça.
Enquanto ele estivera fora do ar, a Matriz, alertada imediatamente do conflito entre policiais, tentou uma reunião on-line de emergência com os supervisores dos três condomínios. O executivo encarregado do Fortificado Atlântica Sereia não compareceu. Seus subordinados informaram que ele havia sido “vitimado” por uma A1, num apartamento privado, anexo aos seus aposentos, na cobertura executiva. Era o que poderiam dizer. E que se encontrava desacordado, sob cuidados médicos.
A Matriz não aprovou que o Supervisor tivesse se ausentado no meio de uma guerra entre as forças policiais  sob a sua administração, que na verdade se transformou numa conflagração geral, com represálias de todos os lados e uma escalada fora de controle nos enfrentamentos.
Na reunião, os executivos presentes responsabilizaram o Supervisor do Atlântica Sereia pelos acontecimentos (“Se providências imediatas e eficazes tivessem sido tomadas, sem demora...”) Já nesse momento era oficial a sua transferência para a Região Afastada 7. E rebaixado para o posto de gerente de serviços de entrega. Iria dirigir o DÊ-SEX de lá, sem direito a fazer aquisições próprias. O ex-Supervisor não teve oportunidade de responder às acusações. Da cama, foi colocado imediatamente no helicóptero que o levaria para o aeroporto e, dali, para a Região Afastada 7, num continente onde ninguém desejaria trabalhar, e com “nativos” diante dos quais não teria de fingir para que suas ordens soassem com  sotaque estrangeiro.
Foi toda essa confusão que salvou Chokita. Se o Supervisor ainda fosse supervisor, descontaria nela parte da sua raiva. Como não tinha mais autoridade para isso, a garota passou várias semanas esquecida na suíte A3, com todo o conforto, até ser reencaminhada para o harém.
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“É só uma história...”... Úgui jamais esqueceria o afago do velho CÊ-Dê quando se despediram. Lamentou que o velho não quisesse ir com eles. “Uma história que os funcionários contam.”
- Tenho minha toca na Zona Norte – disse... – Uma casinha. Um lugar seguro. Ninguém vai lá. Ninguém acha que tem nada lá. Eu me preparei para uma situação como essa. Mas, vocês... Se for verdade, sigam com cuidado a orla marítima, passando pela Zona dos Condomínios, e continuem. Vai ter uma reserva florestal imensa. E uns pântanos. Tudo abandonado. Cuidado com os jacarés por lá. Não, não estou brincando. Explico depois o que são jacarés... Então, se forem até bem longe, vão encontrar umas fazendas. Um pessoal que morou aqui na cidade, no passado. Os cretinos daqui não se interessam por eles, a não ser como fornecedores de ovos, queijo, verduras... É de onde vem muita coisa que os executivos gostam de ter na mesa. Hoje são artigos de luxo. Mas já se vendeu tudo isso em feiras, nas ruas... Em lojas... Não importa. Lá, vocês vão ficar sabendo de tudo isso. E tem lugar para vocês,  se quiserem trabalhar e  viver em paz. Ninguém daqui perturba esse pessoal. Precisam deles. Ora, é somente uma história... Mas, repetem tanto. Pessoas diferentes, com detalhes. Mas, sempre a mesma história. Não pode ser mentira, não. Tem alguma coisa lá. Daí, quem sabe? Se for isso mesmo... Bem, pode ser bom para vocês. Se eu fosse mais moço... Vão!  Para vocês, vale a pena tentar.
Apenas uma história. E Úgui era bom para contar histórias. Era uma das qualidades necessárias a um chefe de bando, contar histórias. Por isso, mesmo não sabendo direito o que iriam encontrar, soou bastante convincente diante do seu antigo bando. Decidiram acompanhá-lo. Liana também. A história devolveu o sorriso ao rosto dela. Os dois de braços dados, ele ajudando a carregar as sacolas de livros que ela trouxera, e lá foram,  seguindo uma história. Somente uma história. Mas, lá iam eles.
No que derrubou o Supervisor, Liana correu para Úgui. Deteve-se a um passo dele, sem tocá-lo. Ele a fitou. Estavam assustados. O garoto ainda teve dificuldades para se por em pé. As pernas tremiam. Pareciam que não iam sustentá-lo. O corte em sua garganta voltara a sangrar. Mas, não tirava os olhos dela. Quando ela estendeu a mão para ele, Úgui a puxou para si. E se abraçaram.
- Tem um velho... esperando por nós. Pode nos tirar daqui. Mas, vai embora logo.
Liana assentiu de cabeça, compreendendo o que deveria fazer. Ou melhor, decidindo o que iria fazer a seguir, apesar dos protestos de Úgui. Ela correu para arranjar sacolas, na despensa, e depois começou a enfiar os livros encadernados dentro delas.
- O que você está fazendo, sua doida? Essa sua mania de catar porcaria! Liana! A gente não tem tempo para isso!
- Meu pai ... – murmurou a garota, para espanto de Úgui. – Meu pai morreu. Esses livros são ele. Para mim. Dele para mim!
Úgui sabia que não tinha tempo para ficar espantado. Respirou fundo e então foi auxiliá-la a juntar os livros. Havia muitas coisas que não sabia sobre Liana. Muitas coisas que ele queria conhecer.
- Seu pai... de verdade? Como antigamente? Você viveu com um... pai?
Liana obrigara Úgui a virar de costas enquanto ela tirava a blusa de seda e vestia as roupas com que tinha chegado no Condomínio. Depois, passou no banheiro para lavar a maquiagem e soltar os cabelos. Tudo isso com ignorando mais protestos de Úgui.
- O velho é meio maluco. Conta umas histórias, não sei... Pode ser que seja verdade. Mas, ele não vai ficar esperando para sempre. Vamos, Liana! Por favor! Se apressa, tá?
                Cê-Dê os conduziu no seu carro velho até o shopping, onde estava o bando. E foi aí que se despediram. Já havia blindados da polícia levando a guerra à Via Expressa. Na confusão, Úgui conduziu  o seu bando, à noite, para se esgueirarem pela orla, junto à rodovia, fora do alcance do sistema de segurança – que, fosse como fosse, fora danificado pelos combates e funcionava apenas precariamente.
                Num dado momento, já a boa distância dos condomínios, quando alcançaram o alto de um morro, Úgui se deteve, observando todo o bando, que o seguia. Todos com muita esperança. Estava satisfeito consigo mesmo por ter voltado para pegá-los. Sentia que era o tinha de fazer. Que era o certo. Mas, tinha medo. As histórias que contara ao bando...
                - E se não tiver nada lá? – segredou para Liana, indicando uma planície e o horizonte ao longe.
                - Vai ter! – disse Liana. – Vai ter a gente, não vai?
                Úgui assentiu, confortado. Talvez, Liana tivesse razão. Talvez, tivesse chegado a hora deles. A hora de viver num mundo do qual não fossem apenas sombras.          
               


FIM


[Este é o último episódio de A HORA DAS SOMBRAS.
Todos os episódiops ficarão ainda um tempo aqui no BLOG e definivamente
no Wattpad:https://www.wattpad.com/story/56742459-a-hora-das-sombras ]


A SEGUIR

OS DADOS DA MALDIÇÃO




Você não deve fazer acordos com o Mal, porque ele uma hora cobra a conta...
E você não deve brincar com o Mal, quando ele pode sair para fora do jogo ...
... E vir brincar com você!


terça-feira, 10 de maio de 2016


UM LINDO & CRIATIVO "resumo" de

Machado e Juca

no youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=NDndnPfp4uk