domingo, 30 de agosto de 2020

PORTUGAL

 CHICO, SARAMAGO, PESSOA

... Delírios e Utopias!  

 

“Ai, essa terra ainda vai cumprir seu ideal...

Ainda vai-se tornar... Um imenso Portugal!”

Fado Tropical, Chico Buarque, 1973

 

               A epígrafe é do Chico, num ataque poético tanto à ditadura salazarista quanto à militar, no Brasil de 1974. Mas quero começar esta argumentação por José Saramago.  E particularmente por seu romance Jangada de Pedra.

               Não posso adivinhar os significados que teria a grande metáfora que envolve esta obra, para o Prêmio Nobel de 1998, falecido em  2010. No romance, Portugal, qual uma jangada de pedra, se destaca do restante da Europa e passa a vagar à deriva pelo Atlântico, isolado do mundo, isolado do seu presente, da sua contemporaneidade.  Imune à passagem do tempo.

               Certa vez, isso depois da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, assisti à palestra de um membro do Consulado Português, explicando Portugal antes e depois da ditadura Salazarista, que vinha desde 1926, passando pela morte do tirano Salazar, substituído pelo não menos tirânico Marcelo Caetano. Segundo esse personagem, cujo nome não vou lembrar, o grande objetivo de Salazar sempre foi isolar Portugal do restante da Europa, onde movimentos vanguardistas provocavam mudanças políticas, sociais, econômicas e culturais. Esse consul afirmou, ainda,  que Salazar era um homem que acreditava – piamente – na volta de D. Sebastião a Portugal.

               D. Sebastião , “O Desejado”, “O Esperado”, o Redentor”, foi um rei português que lutou nas cruzadas, e “desapareceu”  na batalha de Alcácer e Quibir, em 1578. A decadência de Portugal, após o ciclo das Grandes Navegações, se inicia mais ou menos junto com essa tragédia nacional. O retorno de D. Sebastião, que nunca se deu, era tido pelos portugueses como o milagre que indicaria Portugal como, de fato, uma nação de escolhidos, destinados a governar um império que se estenderia da América do Sul, passando pela África, até a Ásia. O “sebastianismo”  foi uma seita mística dedicada a esperar pela volta de D. Sebastião – uma sombra que pesou sobre Portugal durante séculos,  como se ele ainda pudesse retornar, mesmo depois de tanto tempo – e pela consequente ressureição de Portugal.

               O resgate de Portugal,  para se integrar ao mundo europeu e abrir os olhos para seu atraso, para a necessidade de se libertar do tal passado de glórias (as Navegações) e pensar em si no presente e no futuro, iniciou-se de fato, não com  a volta de D. Sebastião,   mas com a Revolução dos Cravos.. .. que se deu inclusive, entre outros fatores, como consequência do apego anacrônico de Portugal à sua política colonialista – racista - na África, que por sua vez lhe custou guerras e sacrifícios vãos.

               Bom, por que escrevo tudo isso? Porque é um tema, até aqui, literário...  a  Jangada de Pedra, ilhada afastada do fluir do tempo, das mudanças da integração com o restante do mundo, a letra de Chico...

               Mas, também porque tem tudo a ver com nosso presente bolsonarista.  O psicopata que nos desgoverna nos afasta cada vez mais do mundo, transformando o Brasil em símbolo e exemplo de atraso, de persistência da homofobia, do racismo, da opressão social, do aniquilamento das florestas e dos povos indígenas... e, se os desejos deles se confirmassem, da volta da ditadura, nos moldes de mais de meio século atrás. Que o tempo não passe. Que as mudanças que a maioria do povo exige nunca ocorram, que sejam estigmatizadas como comunistas. Que nossa integração ao mundo, o qual desperta (a não ser o Trump, seriamente ameaçado de ser atropelado pelas manifestações antirracistas e perder as eleições,  e mais 3 ditaduras : Bielorrrússia, Turcomenistão, Nicarágua; devo confessar, quanto aos dois primeiros, faço apenas uma tênue ideia de onde ficam) para uma Humanidade  mais tolerante, promotora da justiça social, da proteção ao nosso habitat planetário, generosa em relação às minorias, aos refugiados, mesclada ao extremo em relação às múltiplas etnias e crenças que habitam todos os países. Particularmente nosso  mestiço e sincrético Brasil.  Ou seja, há razões para crermos na fundação de uma comunidade planetária, fraternal, depois que essa pandemia, e este ano de 2020 nos mostrar que o problema de um é o problemas de todos; e que a solução de um só é  encontrada, reciprocamente, na  solução para e com todos.

               O reacionarismo bolsonarista tem inspiração salazarista. Mesmo o olavismo, achando-se tão moderno. Pode até não saber disso, mas tem. Até no projeto – um homem forte perpetuado no poder (no caso, com sua família), apoiado pelas forças armadas. Sonha com a volta de um passado irrecuperável, a ditadura militar. É feroz, em seu endeusamento da tortura e dos torturadores, da censura, da perseguição implacável e criminalização dos opositores. Quer nos manter, com fake News  e fanatismo, isolados do que o mundo repensa, de como o mundo gira, atado a esse passado,  temendo mudanças. Os de mentes mais conturbadas o vêem como redentor do seu terror a mudanças, que são inevitáveis, são o próprio correr do tempo. Assim como temem a integração de fato do país ao mundo convulso, onde essas mudanças fluem naturalmente.  Na verdade, essa naturalização da mudança os horroriza. Unem-se no passadismo. Queriam que o Brasil fosse uma jangada de pedra. Esta é a promessa mentirosa dos fascistas brasileiros, é a ilusão vã de seus seguidores. O Brasil não vai se tornar um imenso Portugal até porque o modelo desse delírio não existe mais.

               Torno a dizer, D. Sebastião nunca voltou. O Sebastianismo, denunciado como ainda um traço forte na alma portuguesa, por Fernando Pessoa, em vários poemas, terminou em cravos vermelhos.  Os militares exauriram-se nas guerras coloniais e retornaram a Portugal para por fim ao regime. Nesse meio tempo, muitos deles haviam se tornado democratas,  comunistas, ou socialistas, sociais-democratas – tudo, menos salazaristas.  

O antirracismo une o mundo hoje. Outras causas, como a anti-homofobia, a defesa do meio ambiente, também. E no Brasil, forma-se uma frente ampla contra o fascismo miliciano.

                Tanto Chico quanto Saramago eram otimistas, ou não teriam  criado sua obra, que clama, nas entrelinhas, nos silêncios entre acordes, e mesmo explicitamente, é claro, por mudanças. Eu sonho que o mundo saia de  2020, não, querendo esquecê-lo , como se este ano não tivesse existido, mas, como um marco de mudança. Foi o ano em que o antirracismo assumiu o protagonismo das mudanças sociais. Em que o povo enfrentou a pandemia e foi às ruas defender a democracia. Em que perdemos uma infinidade de semelhantes, por quem choraremos para sempre. Porque lembraremos que, num país mais justo, grande quantidade dessas mortes poderiam ser evitadas.  Porque, quem sabe, até mesmo em homenagem aos que foram sacrificados,  a gente saia deste momento triste  mais predisposto a essa fraternidade planetária, a essa identidade de semelhante dos povos e indivíduos dos 1001 cantos do mundo?

Pensando no Portugal progressista e solidamente democrático de hoje – pelo menos até a pandemia – quem sabe a profecia de Chico não se confirme e nossa terra se torne um imenso Portugal?

 Um mundo, portanto, mais apto para ir às estrelas, consagrar utopias, tornar-se melhor!

terça-feira, 25 de agosto de 2020

 BIELORRUSIA HOJE PODE SER O BRASIL DE AMANHÃ!

Juntamente com os ditadores do Turbequistão e da Nicaraguá, sem contar, é claro, o quem-reclama-já-perdeu-Trump, Jair Bolsonáro, o psicopata que nos apresidenta (como "apresuntado" está para presunto), são os governantes no mundo que tratam a epidemia como um inimigo ideológico, favorevendo a mortandade da população. Temos 115 mil mortos a chorar, e Bolsonaro, quando perde o mínimo de controle que a ordem unida que pouco praticou lhe ensinou, mostra que é um ditador à altura de seus pares. Svetlana Aleksiévitchm escritora , ganhadora do Prêmio Nobel, pede socorro ao mundo na primeira página de O GLOBO de hoje. Na Bielorrusia, o movimento democrático está nas ruas pela derrubada do ditador. A repressão é assassina, como sempre. Svetlana diz que pode ser presa a qualquer momento, por seu apoio aos rebeldes. A luta na Bielorrussia também é nossa! No Brasil, temos um ensaio do que a Bielorrusia é, governados por um tirano da mesma estirpe. EU ACUSO: O quanto vamos aguentar? Meu amigo, minha amiga Bolsonarista: O QUANTO VC ESTÁ DISPOSTA A AGUENTAR por seu ódio à esquerda, que hoje é uma menção mais vaga do que nunca? Rui Costa, governador da Bahia, dá a direção, assim como Flávio Tino , Governador do Maranhão, do PCdoB: Que nos unamos com o DEM, com o PSDB, com quem for, para afugentar a ameaça fascista, a tirania! E se Lula ou qualquer outro não puder superar seus rancores pessoais, justificados ou não, que fique de fora. Tchau! Uma aliança é o momento, não um pacto eterno. E, digo isso eu que não votava no PT há muito tempo, eu que, a não ser nas últimas eleições, quando votei, com esperança, em Haddad, tenho votado nulo repetidamente. Mas, contra Lula e Dilma não há o que se acusar, nem de perto, à altura dos rastros, evidências, provas de crimes cometidos pelos Bolsonaros, fora o comportamento genocida de psicopata alfa, o "00". Até quanto estamos, por conta desse rancor contra o PT, dispostos a aguentar de um presidente que as pessoas mais lúcidas deste país, mesmo as que se entregaram à campanha contra Dilma e Lula na imprensa sem limites nem piedade, proclamam que não tem condições de nos governar? De salvar vidas da pandemia. De tirar o país, numa trilha humanista (nada parecido com Guedes), da recessão profunda em que mergulhamos, e na qual mais fundo ainda iremos. Até quando? Até virarmos a Bielorrussia? Ou nem assim? ABAIXO BOLSONARO! #eusouantifascista Quero saber quem mandou matar Marielle. Quero saber por que Queiroz depositou 89 mil reais na conta da esposa do presidente. Por uma FRENTE AMPLA, DEMOCRÁTICA, REPUBLICANA, CONSTITUCIONALISTA contra o fascismo! DEMOCRACIA! FRATERNIDADE! INTERNACIONALISMO!

 EUROPA

Da Ditadura Aqui Para o Banho de Internacionalismo do lado de Lá do Atlântico

Luiz Antonio Aguiar

Lembro até hoje do cerco, na cozinha dos meus pais. Minha gang (não chamávamos assim na época) de zorra, Argollo à frente, tentando me convencer:
- Mas o que é que você vai fazer na Europa, Bicho? Vem pra Bahia com a gente, passar o Carnaval! Vai ser uma doideira, lá na Bahia. E na Europa, um gelo, inverno brabo, coisa velha... Lá, você é estrangeiro. Vem com a gente!
Estava com a passagem comprada. E realmente me senti tentado. Aquela era minha turma. Pelas madrugadas do Rio, encostávamos nos bares mais marginais, querendo ser fora da ordem de qualquer maneira. Tempos de ditadura. E a gente ia pra Avenida Atlântica, subia nos bancos de pedra e declamava nossos poemas. Pensavam que a gente estava doido. Um dia, resolvemos mergulhar na água nús. Quando olhamos em volta, uma dezena de caras tinha aderido a gente, todos querendo nos agarrar. Fugimos correndo. Rebeldes, mas não tanto, na época. Mas, a vontade de se sentir marginal, fora do sistema, era grande.
- Bahia é coisa nossa! -, apelou o Argollo.
] Mas, eu fui mesmo para a Europa.
Quer dizer, Europa... Tinha pouquíssimo dinheiro de uma herança e uns acumulados. Escolhi passar dez dias em Londres, uma semana em Amsterdã e vinte dias em Paris. Era o que dava. Sem grana para um casaco bom para inverno, nem para comer direito (emagreci 10 quilos em um mês de Europa – andava o dia inteiro, comia pão e vinho... mas vinho nacional, na França!).
Não me arrependi de deixar a coisa nossa para lá... Em Londres, entre muitas lembranças, recordo do espanto de poder comprar os jornais dos diferentes partidos de esquerda na banca de jornais da esquina. E aquela moda deles, linda, de poder falar o que quisessem, até mal da Rainha, no Speakers Corner, contanto que subissem num banquinho, para não estarem pisando em solo britânico. Foi em Londres que me apaixonei por Van Gogh.
Não conhecia pintura, nem ligava para isso. Mas era uma quarta-feira de 5 graus negativos na rua (e eu de jaqueta jeans), e era também o dia da semana em que muitos museus ofereciam entrada grátis para estudantes. Havia aquecimento nos museus. Entrei num, o primeiro que apareceu na minha frente. Estava enregelado. De repente, dei com uma tela de Van Gogh. Caí sentado no chão, emocionado. Nunca tinha visto algo tão vivo, tão vibrante, na vida.
Momentos depois, um guarda do museu veio me sacudir falando rispidamente que eu não podia ficar arriado no chão daquela maneira, que não era o jeito de ver quadros, coisas assim... Viu logo que eu era estrangeiro, latino ainda por cima. E acrescentou isso às suas sacudidelas.
Tarde demais. Eu havia me apaixonado, e essa paixão dura até hoje. Quarenta anos depois, escrevi SONHOS EM AMARELO, sobre Van Gogh, um dos meus livros de maior sucesso, com prêmios e traduções no exterior – pouco reconhecido no Brasil; algumas resenhas das quais me orgulho, como a do professor Gustavo Bernardo. Era uma declaração de amor ao pintor que mudou minha vida. Diante daquele quadro, eu me senti no mundo, finalmente. Havia alcançado... Estava na Europa!
Em Amsterdã, vi pela primeira vez policiais civilizados, barbudos, mais com cara de hippies do que eu, que só tinha levado uma calça jeans (naquele tempo se dizia calça “lee”, e nem pensava em fazer shopping na Europa – dinheiro curto, muito curto, se já existia cartão de crédito, na época, eu ainda não havia sido apresentado). Dois guardas, muito sentados num banco, com um garoto no meio. O guri estava obviamente doidão. Doidaço. E os guardas, no papo, tentavam acalmá-lo. Nem se pensava em prendê-lo. Apenas evitar que se ferisse.
Fiz 20 anos em Amsterdã, mas a cidade me encantava tanto (principalmente os museus com quadros de Van Gogh), que me esqueci disso, e só fui lembrar da data depois das seis horas da tarde.
Depois foi Paris. É inenarrável o que eu senti. Passava o dia e a noite caminhando. Atravessava o Sena inúmera vezes, pelas pontes... Da margem esquerda, onde estava hospedado, para a direita, e voltava. Estava morando numa pensão na Rue Cujas, que saía para uma lateral da Sourbonne. Uma das portas por onde os estudantes entravam para as aulas. Todo dia, de manhã, eu saía para o meu não-café-da-manhã e não-desjejum (o jejum continuaria até a baguete com a garrafa com vinho que eu deixara gelando na soleira da janela na noite anterior) do final do dia. E rezava, sim, rezava, para um dia poder estudar naquela universidade.
Certa noite, fui a um show musical e vi algo que me embebedou – de vinho, em Paris, a gente nunca fica bêbado, ainda mais caminhando o dia inteiro. Era um pré-roqueiro famoso, americano, que ia tocar, Chuck Berry. Não havia ingresso para todo mundo, mesmo para quem podia pagar a entrada, o que não era o meu caso. A policia protegeu a frente do teatro, e a estudantada começou a se juntar.
De repente, começaram a tacar pedras na polícia, que avançou para eles. Numa manobra super bem apreendida, um grupo se deslocou para um lado, outro para o outro lado e brecou. A polícia, que em qualquer lugar do mundo avança toda unida, colada um no outro, obedecendo as ordens de um único comandante, não se dispersou como eles. Resultado. O grupo da frente começou a tacar pedras. O que se havia desviado, voltou por trás dos policiais e dá-lhe pedrada também. A polícia ficou encurralada. Era a primeira vez que vi a polícia – que também não apelou para a violência desmedida – se dar mal, num confronto de rua, derrotada e posta para correr pelos estudantes. Maio de 1968 ainda estava bem fresco na cabeça tática dos movimentos de rua, faziam tudo certo, como se tivessem ensaiado – estávamos, creio, em 1974.
Fiquei orgulhoso, como se já tivesse assento ao lado deles na Sourbonne. Além disso, havia as livrarias, onde podia comprar os livros mais proibidos no Brasil. Os cinemas, onde podia assistir aos filmes mais proibidos no Brasil. Vi O Último Tango em Paris e Laranja Mecânica, proibidos aqui, em Paris. E muitos e muitos mais. Lia todo dia L’Humanitè (chegava na banca e, me achando, pedia “L’Huma, s’il vou plait”), jornal oficial do Partido Comunista Francês, inclusive com várias matérias, denunciando as torturas, os assassinatos políticos e a censura no Brasil.
Sim, estava na Europa. Mas, chegou a hora de voltar. Na Alfândega, estavam revistando todo mundo. O cara da Polícia Federal meteu a mão na minha mala de livros Eu rezei. Ele sacou de lá um Heidegger, assoviou e falou: “Cuidado pra não ficar maluco, hem, garoto”.
Se tivesse fuçado mais, encontraria o Livro Vermelho de Mao, O Diário de Che, Lênin, Trotski, a banda toda, mais as brochuras vermelhos, com as atas e resoluções das reuniões da Internacional Comunista. Anos depois, essa mesma mala teve de ser entregue, no meio da madrugada, para um companheiro que eu não vi quem era, que passou de carro para recolhê-la, junto com os documentos da O. (nossa organização clandestina, não-militarista, a Organização de Combate Marxista-Leninista Política Operária – POLOP). Eu saí de casa naquela noite, a polícia bateu lá no dia seguinte. Minha mae, muito à vontade, recebeu os agentes na sala, ofereceu-lhes café e, quando perguntaram onde eu estava ela suspirou e disse: “Ah, o senhor sabe como esses garotos são... deve estar tendo uma aventura com alguma menina, por aí Volta amanhã ou depois”... Era o começo dos meus 6 meses de clandestinidade.
Estava de volta ao Brasil.
Tive sorte, não fui pego, cheguei a ser seguido, mas despistei os caras, e não passei nenhuma cana braba. Às vezes em que fui preso, foi pichando parede, ou em manifestações de rua, e nunca fui identificado como militante. Passei horas, uma noite no máximo, no DOPS na Rua da Relação. O delegado que nos recebneu, numa dessas, apontou uma parede, que na verdade era uma grade de cima a baixo, do teto ao chão e disse: “Se vocês passarem através daquela grade, aí o pau come”... Não tivemos de passar coisa nenhuma. Ficaram olhando para a cara da gente, a noite inteira e nos mandaram embora de manhã. Já na época, tinha amigos lá dentro, sabia que estavam sendo torturados barbaramente, sabia do que o delegado estava falando.
Entretanto, vivi meu tempo. Fiz o que tinha de fazer, no tempo em que era necessário fazer. Como agora, talvez pela última vez, também tenha de lutar contra uma tirania que amaça, como uma nuvem sombria, a todos nós.
Nunca esqueci a Europa. Voltei lá outras vezes. Foram viagens diferentes. Descobri outras coisas, fui acompanhado, apaixonado, enfim... Mas, daquela primeira vez foi quando compreendi o que era o mundo. Vi o mundo. O Mundo... essa possibilidade de uma grande, fraternal comunidade sem fronteiras. Que hoje, em todos os quadrantes, lutam assim como nós, contra o racismo, a homofobia, pela proteção dos povos indígenas e do meio ambiente. Pela democracia. E por tantas outras causas solidárias. Internacionalmente solidárias.
Foi da primeira vez que vi o mundo que esse sonho, essa utopia fértil e atualíssima, me pegou. De uma vez por todas e para sempre.

domingo, 16 de agosto de 2020

VIETNÃ – anos 1970 ou Por que desconfio de qualquer alegação de nacionalismo

 


Entre os anos de 1970 e 1971, eu morei nos EUA, no norte do estado de Nova York, fazendo um programa de intercâmbio. Cursava algo que seria semelhante ao último ano do “colegial”, na época, ou 12º ano, se não me engano, pela nomenclatura de hoje. Enfim, era o último ano de colégio. Meus colegas, como eu, estavam em vias de completar 18 anos. À medida que faziam aniversário, logo lhes chegava uma carta do Departamento de Estado Americano.
Era a convocação para fazer o treinamento e depois seguir para a Guerra do Vietnã. Poucos se sentiam orgulhosos por essa oportunidade de “servir à pátria” até porque poucos sabiam onde era o Vietnã ou por que as tropas americanas tinham de se meter por lá. Em contrapartida, escutávamos histórias assustadoras, de vietnamitas enfrentando helicópteros americanos, simplesmente dobrando palmeiras e soltando-as de encontro às aeronaves, que tombavam. Ou, simplesmente, emergindo de buracos no solo, onde haviam esperado dias, às vezes sem água nem comida, até chegar a hora de saltar fora e matar os americanos que estivessem ao redor (mesmo que morressem em seguida) sem desconfiar do que os esperava, logo abaixo do chão.
Em suma, tínhamos ali uma população mobilizada para se defender contra invasores, de um lado, e garotos que iam ser atirados no meio deles, sem saber por quê. Sem ter de fato nada a defender. As bandeiras americanas hasteadas nas portas das casas de alguns dos que lutavam por lá não os animavam. Muitos faziam planos de fugir pela fronteira do Canadá – seis ou sete horas de distância de carro – e se exilar. Nunca mais poderiam voltar. Que eu saiba, os EUA nunca deram anistia àqueles desertores. Mas, não precisavam viajar tanto para evitar de serem arrastados para a Guerra. Quem viu HAIR (ai, que maravilha! Que marco de uma época!), sabe que muitos, simplesmente queimavam a carta de convocação e acampavam no Central Park, em Nova York, ou pelo campus da Universidade da California, sem identidade, sem poderem ser presos e identificados como desertores.
E alguns, muitos, a maioria, provavelmente, atendeu à convocação. A pressão patriótica nos EUA é enorme. Apesar de não se explicar o motivo de estarem em guerra contra uma minúscula nação tão distante, muitos repetiam autonomamente o discurso de que iam defender a pátria. Contra o quê? Só o governo sabia.
Quem assistiu os inúmeros filmes sobre a Guerra do Vietnã, sabe que muitos desses que foram para lá, morreram – 100 mil americanos. Ou se viciaram em drogas para aguentar a barra e voltaram pirados.
Bom, já temos mais mortos pela COVID no Brasil, sem guerra, mas com um psicopata chamando as pessoas a um patriotismo que não é confirmado por suas ações, nem as de seus ministros. Não amam o povo, que abandonam, abandonando a saúde, o combate à pandemia, que exploram e ajudam a explorar com a ameaça de novos, injustos e impiedosos impostos; não amam a natureza, que destroem; não amam a cultura, que desmontam, inclusive tentando (não conseguirão!) taxar e elitizar de vez a Literatura; combatem a liberdade na educação... Enfim... O que é “Brasil, Pátria Amada”? Amam, eles? Amam , o quê?
Para mim, o antirracismo, a defesa dos povos indígenas, a defesa do ecossistema brasileiro seriam uma forma de patriotismo. Não, baseados no passado, no que está inerte, somente na tradição, da qual é importante sentir orgulho, mas especialmente no presente atuante, militante, rebelde, dessas lutas.
E fazem o que fazem, os governantes, alegando patriotismo, nacionalismo etc... Assim como aqueles jovens foram mandados para uma Guerra que não era deles. Não tinham um ideal, uma razão para morrer – como o combate ao fascismo, a garantia da liberdade contra a Ditadura Militar no Brasil. Mas, o apelo servia a um movimento de peças (meus colegas, meus amigos atônitos com a carta de convocação nas mãos) para as trapaças do poder e os lucros da indústria armamentista.
Por essas e outras, palavras como pátria, nação, país, e mesmo o nome de uma unidade territorial (as nações foram criadas depois da Idade Média; não existem desde sempre) significam pouco ou nada para mim. Sobre nacionalismo, lembro dos meus amigos, que podem estar mortos há décadas, e que morreram sem saber por que morriam. Os poucos que tinham alguma informação a mais, a respeito, desconfiavam ousadamente que eram o lado errado, naquela guerra. Eles eram os bad guys, no Vietnã. 
Pelo menos, os guerrilheiros, mortos pela ditadura militar em combate ou assassinados sob tortura, sabiam por que entregavam a vida. E isso se chama desprendimento. Lá, nos EUA, na década de 1970, assisti a garotos, que como eu, amavam os Beatles e os Rolling Stones, e que não tinham chances contra quem estava defendendo sua terra, e a isso – como historicamente foi o massacre de Assunção, Paraguai, crianças e velhos sendo chacinados nas ruas, na falta de exército da nação já derrotada e rendida - , chamam de nacionalismo, patriotismo, o que for. Como se sabe, os EUA, com suas tropas incontáveis e imenso armamento, foram postos para correr do Vietnã.
Lembro do olhar daqueles meus amigos, conversando, rindo, jogando basquete, ping-pong... lembro do genocídio dos povos indígenas, excluídos do “Pátria Amada” de hoje... penso nas 100 mil vítimas da perversão psicopata do governo federal e das demais instâncias, que nada fazem, que abandonam o povo e penso... Eles não foram incluídos na "Pátria". Eles não foram "amados". Por que não? 
Tenho razões de sobra para desconfiar de quem alega o patriotismo como coisa sua, sua versão de pátria, de povo... quem sabe se resuma a ele próprio, sua distorção mental, seu autoritarismo impositivo, e o Bem , não comum, mas dos SEUS?
Minha referência , meu sentimento, está em uma democracia em construção histórica, no mundo inteiro, internacionalista e sem fronteiras, por meio de movimentos antirracistas, antihomofóbicos, ambientalistas e semelhantes. 
Sim, meus semelhantes. Um mundo onde cada ser seja meu semelhante, assim considerado, respeitado, honrado – mesmo com suas individualidades, particularidades, identidades. Todos, fraternalmente unidos numa comunidade universal, visando a prosperidade e o avanço da ciência, a democratização da arte, do conhecimento, das curas, e a exploração do desconhecido multiiverso... Capaz de materializar utopias.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

LÍBANO

 LÍBANO

(ilustração: Márcia Széliga)



Luiz Antonio Aguiar

O alfabeto que usamos veio do Líbano.
Na verdade, é um lindo mito grego. Naquele tempo, o Líbano se chamava Fenícia. Os fenícios eram comerciantes marítimos, excelentes navegadores. Diz-se até que estiveram aqui por nossa terra, em tempos anteriores à História Ocidental.
No mito, havia uma princesa linda, no Líbano, chamada Europa. Muito jovem, virgem. Zeus, numa de suas chifradas famosas na esposa Hera, apaixonou-se por ela, disfarçou-se de um majestoso touro branco e apareceu a Europa. A moça, encantada, quis subir no lombo do animal, que o permitiu docemente. Mal ela se instalou nas costas do touro, ele decolou, raptando Europa. Europa nunca mais foi vista pelos mortais.
Cadmo, seu irmão, enlouquecido, não aceitou o sequestro, mesmo sabendo quem o havia praticado. Reuniu alguns de seus melhores homens e saiu em perseguição... a Zeus. Naturalmente, nunca o encontrou, mas chegou, sob orientação do Oráculo de Delfos, consagrado a Apollo, a uma região até então desabitada da Grécia.
Num confronto com um Dragão, filho do Deus Áries, a fera liquidou com todos os companheiros de Cadmo, mas o príncipe, sob orientação de Atená, matou o dragão, e extraiu seus dentes. Daqueles dentes, nasceram soldados, e a cada um desses soldados foi consagrado um dos símbolos do alfabeto fenício, que dessa forma introduziu a escrita na Grécia.
O alfabeto fenício tinha um diferencial de enorme praticidade em relação às demais escritas. Era fonético. Trazia símbolos, representando sons bocais, que, agrupados, formavam palavras. Assim, com 22 símbolos, se poderiam escrever o nome de todas as coisas, de tudo o que existia e se fazia no universo. Bem mais fácil do que decorar “desenhos”, ou pictogramas requintados, como as demais escritas de até então. O alfabeto fenício é o único, tecnicamente, que deve ter esse nome alfabeto, que numa tradução simples, quer dizer sequência de letras. Era portanto o único cujos símbolos representavam, não, coisas, mas letras.
Naquele lugar sagrado, Cadmo fundou a cidade de Tebas, que foi famosa ao fundo de toda a Mitologia Grega. Foi lá que nasceu Dioniso, filho bastardo de Zeus, em outra aventura com uma princesa, Sêmele, que, por vingança de Hera, morreu fulminada. Isso quer dizer que Tebas é a origem do Teatro Grego, da Tragédia, da Literatura. Lá também nasceu e viveu grande parte da sua vida, até partir para a realização dos 12 trabalhos, Herácles, o maior de todos os heróis de todos os tempos. E foi o palco da mais famosa e enigmática das tragédias clássicas, a de Édipo, rei de Tebas.
Meu avô, Alexandre José Farah, veio de Nahzé, perto de Beirute, para o Brasil. Não tenho ideia de como se fala Alexandre, em árabe; José é Iussuf, pelo que me ensinaram na casa da minha avó; e Farah quer dizer alegria, contentamento, em árabe.
Na verdade, foi como o funcionário da imigração que o recebeu grafou seu nome, na entrada no Brasil. Vários parentes vieram no mesmo navio. Cada um foi para um balcão, com um funcionário diferente, que grafava o nome conforme o escutava, ou decifrava. Assim, a família dividiu-se em Bufarah, Farath, Fará etc...
Meu avô foi para o Mato Grosso. Começou a ganhar a vida como mascate. Mais tarde, casou-se com uma italianinha, originária de um vilarejo perto de Nápoles. Ela tinha 13 anos e meu avô era mais velho do que o pai dela, que não aceitou o casamento. Então, minha avó “fugiu de casa” para se casar (atravessou a rua e ficou na casa de uma tia ou prima) , mas, absolutamente católica, disse que só entraria na igreja de braço dado com o pai. Os turcos, sírios, egípcios, libaneses da região, todos eles, cercaram a casa do meu bisavô, Luiz (Antonio era o pai dele, se não me engano), ou Luigi, e o levaram a força para a igreja. Minha avó, durona, deu-lhe então o braço e ele a entregou ao mascate, no altar.
Minha avó cozinhava muito bem, e meu avô também. Em casa, começaram a vender refeições para fora. Trabalhavam de sol a sol, tanto que juntaram dinheiro. Daí, meu avô abriu um armazém de importados da Arábia e da Europa. Os concorrentes puseram fogo no estabelecimento, mas meu avô, mesmo tendo perdido tudo, reconstruiu-o. Ganharam dinheiro de novo e se mudaram para o Rio de Janeiro.
Ao chegar aqui, ofereceram ao casal um terreno, um “matagal”, segundo avaliaram, por um preço mísero. O lugar não valia nada na época, e eles o recusaram, preferindo comprar um casarão em São Cristóvão que, por muito tempo, abrigou a família inteira, mesmo os que foram se casando e suas famílias. O tal matagal, hoje, é metade de Copacabana.
Meus avós tiveram 19 filhos, mas nem todos chegaram à idade adulta. Alguns morreram ao nascer, outros, bem jovens, e uma tia minha morreu no parto. Mas, a família continuou grande. E recebia todos os imigrantes do Líbano, principalmente de Nahzé, que chegavam. Ajudavam-nos a começar a via, como mascates, como meu avô. Vendiam frutas na rua, fugiam e apanhavam da polícia, mas foram progredindo. Na casa da minha avó (a casa era dela, não dele) , falava-se o árabe , principalmente ela, Dona Leonarda Olivieri Farah.
Ficou cega cedo, por catarata que naquela época não se operava. E mesmo assim, andava sozinha pela casa inteira, mandava em todo mundo, fazia macarrão no muque, uma massa que espalhava seu cheiro saboroso pela rua inteira, e , pela manhã, já mais para os anos 1960, pedia a um neto para conferir com ela a cotação da bolsa de valores, nos jornais. Sim, ela investia. O que não seria de admirar. Contavam lá em casa que um dia, os concorrentes de meu avô, ainda em Mato Grosso, mandaram um assassino de aluguel liquidá-lo. No que ele invadiu a casa, Dona Leonarda gritou: “No meu marido, não!”, agarrou a mão do cara e quebrou seu pulso, desarmando-o. Era muito baixinha, e uma maravilhosa contadora de histórias, à la Sherazade.
Meu avô morreu de uma das recidivas epidêmicas da febre espanhola, aí pelos anos 40. Minha infância foi marcada pelos enormes retratos a óleo que tinham em casa, lado a lado, e pelos almoços de domingo, onde a macarronada e o quibe eram imperativos. No mínimo, 50 pessoas, todos parentes. Ou patrícios, como os que meus tios encontravam na região do Centro do Rio, hoje chamada de SAARA, e que naquele tempo tinha sobrados onde a parte de baixo era um comércio qualquer, a de cima, a residência da família, todos de ascendência árabe, libanesa, ou turca. Lembro que, nesses almoços, as crianças roubavam da cozinha bocados de quibe crú, que preferiam, antes que as formas entrassem no forno.
E assim foi. Fora meus primos, já estou falando de pessoas falecidas, inclusive meus irmãos. Devem estar num grande almoço de família, como antigamente...
Mas, minha ligação com a cultura árabe (libaneses não têm origem árabe, mas o árabe é a língua mais falada; o inglês e o francês também são correntes, devido à história de colonizações) não termina por ai. Meu pai, embora cearense, descendente de holandeses e portugueses, me alfabetizou lendo para mim histórias das 1001 Noites (Alf Layla wa-Layla). Entre Ifrites, ou gênios, ou djins, e dançarinas de ventre, suks (os mercados a céu aberto) com barracas vendendo magia, e fartas refeições, varando a madrugada, em meio a uma troca de histórias entre os convivas, fui menino, minha imaginação voou por sobre as dunas dos desertos, invadiu segredos dos oásis, e deu no que deu.
Considerando ainda que tanto o "Olivieri" da minha avó, quanto o "Aguiar" do meu pai, são sobrenomes típicos de cristãos novos (ou antigos judeus), como todo aquele nascido neste país, sou portanto o resultado de uma mestiçagem fértil, étnica e cultural, e meu sentimento internacionalista, acima de qualquer nativismo, vem daí – creio. Por exemplo, acredito que a democracia é uma obra em aberto (como diria Umberto Eco), em construção, e será consolidada com movimentos mundiais, como é o antirracismo e a antihomofobia, a defesa do meio ambiente contra a voracidade gananciosa, hoje em dia, e a solidariedade aos refugiados e aos atingidos pelas catástrofes ou pelo genocídio de todas as matizes; por exemplo, o mundo se pergunta unido como salvar os povos indígenas da extinção patrocinada pelo Governo Federal.
Somos Cidadãos do Mundo e nos cabe, a cada geração, avançar na materialização da Utopia da Fraternidade Universal.
Assim, neste momento de dor, pelas vítimas no Líbano e por mais uma destruição de Beirute, quis contar essa história. O Líbano que não conheci está no meu sangue e nos meus sonhos. A dor do Líbano é também minha. É nossa!


terça-feira, 4 de agosto de 2020