HOMERO
O Mestre em Contar Falsidades
ou
OS Ancestrais do Ladrão de Raios

Aquiles
– ou pelo menos o
Aquiles que Homero criou
em
Ilíada
– era um sujeito complicado. Não vou aqui
contar o quanto pode ter contribuído para essa
complicação a mãe dele, a Ninfa Tétis, obrigada por Hera a se casar
com um mortal, Peleu, o rei de Ftia.
Nem entrar muito a fundo no rancor que ele foi acumulando em sua curta vida por
ser um
quase-deus, um
quase-imortal (havia o
Calcanhar de Aquiles).
Basta dizer que ele, podendo escolher seu destino, decidiu morrer jovem – se com
isso se tornasse um guerreiro eternizado pelas suas proezas em batalha -; daí, recebeu
a profecia que lhe revelava que, se fosse para Tróia, lutar junto aos gregos, não
retornaria de lá, e para Troia ele foi, sem hesitar; noutro
recadinho, lhe os deuses comunicaram que,
se matasse Heitor, o príncipe e grande herói de Troia, morreria a seguir. E foi
exatamente o que ele fez, cuidando de temperar o ato com requintes de
desrespeito ao cadáver do inimigo, a tal ponto que os deuses do Olimpo se
sentiram insultados, e mais ávidos de acabar com o rebelado Aquiles.
As
profecias – dicas sobre o futuro concedidas pelos deuses aos mortais, via
videntes ou outros – perseguiram Aquiles.
A tal ponto que, na cena em que Aquiles parte para a frente de luta, decidido a
matar Heitor, até mesmo seu cavalo, Xanto, ganha voz para adverti-lo:
A isso, contido pelo cabresto, o veloz Xanto
respondeu,
abaixando sua cabeça de modo que sua crina
se derramou, alcançando o chão, e Hera,
de braços brancos como o mármore, lhe concedeu
voz para dizer: “Sim, poderoso Aquiles,
protegeremos sua vida, hoje,
outra vez. No entanto, o seu fim se
aproxima.
A sua morte está cada vez mais próxima. E
não seremos a causa dela, mas sim um grande deus, a Onipotente Fortuna. Assim
como não foi
por falta de empenho nem de esforço nosso
que os troianos despiram Pátroclo de sua
armadura.
Não, o magnífico deus gerado por Leto
matou-o em meio à batalha
e transferiu a glória a Heitor.
Devemos trotar ligeiros como o vento oeste,
Mais rápidos, aliás, do que qualquer vento;
mas
Ainda assim é seu destino ser abatido por
golpes
De um deus e de um homem.”
E
Aquiles, que não aguenta mais escutar que a morte o espreita e que vai pegá-lo
em breve, responde:
Nisso,
as Fúrias forçaram Xanto a se calar.
Com raiva sombria, Aquiles lhe replicou:
“Xanto, por que profetizas minha morte? É
desnecessário. Sei, e muito bem, o que me
está reservado:
morrer aqui, longe de meu amado pai e
também
de minha mãe. Não importa. Tudo o que
interessa
é que não ordenarei a interrupção dos
combates
hoje, antes que os troianos estejam
enojados de
tanta guerra!”
E
com um grito, conduziu suas tropas montadas em corcéis
de poderosos cascos à linha de frente da
batalha.

Uma biografia Romanceada, ficcional do Mestre em dizer falsidades como se deve... A aventura de compor Ilíada e Odisseia... Monstros, Heróis e Deuses da Mitologia criada por Homero
E lá se
vai ele, em busca de seu destino. Como sabemos, ele o encontra.
Haveria
milhares de coisas a se dizer sobre esse trecho, infinitos comentários a se
fazer sobre Aquiles e sobre o
Ilíada.
Quero, no entanto, me concentrar num aspecto específico: o que levou
Aristóteles a proclamar que Homero
foi o
grande mestre dos demais poetas, em dizer falsidades como se deve.
Em
outras palavras, Homero, nos seus dois poemas,
Ilíada e
Odisseia,
criou os recursos da arte de contação de histórias que deram origem à narrativa
longa, o épico, que por sua vez deram no romance, na novela e no conto.
A poesia arcaica grega era restrita a hinos de
adoração aos deuses. O poeta estava ostensivamente presente, homenageando sem
cessar os deuses olímpicos e agregados, seus atributos, sua beleza, sublimidade,
seu poder, numa postura de submissão e adoração
religiosa. A poesia era a revelação de momentos dos imortais, para
pasmo e assombro das criaturas humanas, que não participavam dessas cenas, a
não ser muito, muito raramente.
Redescoberto pelo
Classicismo Grego – Atenas, sec. V a.C. –, quando os poemas de
Homero ganharam pela primeira vez versão escrita e estonteante influência sobre
os
cidadãos,
descobriu-se também em Homero a fonte de técnicas e recursos para se compor
cenas, para envolver o espectador
,
emocionalmente, nos conflitos da trama, nos dilemas dos personagens, na agudeza
de um diálogo...
Hoje,
lemos uma passagem como essa, de Aquiles e seu corcel de batalhas dialogando,
sem estranheza. Mas, nada disso existiu antes de Homero. A personalidade de
Aquiles foi lapidada por Homero, e expressa por ele em ação, em cenas (não mais
em declarações, ou hinos) – um recurso
muito mais envolvente. A ação, o
movimento da cena, sem a infiltração constante e, de certo modo, monocórdia, de
um poeta – o deixar a cena correr por si, a ação puxar a trama, ganhar vida, o desempenho dos
personagens livres de interferências e interpretações on line no texto... Tudo isso é exaltado por Aristóteles como a
arte da verossimilhança, de criar um
momento que não está no real, nem na mentira... De possibilitar ao leitor viver a cena como se ela fosse de verdade...
De dizer falsidades como se deve.
Homero,
segundo Heródoto, com esses dois poemas, cunhou os próprios deuses
. Para
tanto, compilou lendas regionais (como Afrodite e o próprio Zeus), histórias de
deuses vindos do Oriente (como Dioniso) e a tradição oral. Alguns deuses
ganharam trono no Olimpo, outros não. Alguns foram ratificados, outros
rebaixados, ou mesmo relegados a plano inferior (como Mnemosine, a Memória, mãe das Musas,
importantíssimas na tradição grega). Os imortais ganharam atributos, poderes,
características físicas e de temperamento.
Ou seja, de retalhos, ele compôs um conjunto, um contexto – fundou a Mitologia.
A dicotomia
Imortal x Mortal (ou imortalidade x perecibilidade, um tema permanente e universal da Literatura), com todas as suas consequências e derivações, ficou de uma vez por todas estabelecida como a separação entre o divino e o mundano. Esse talvez seja o aspecto
mais amplo da criação de Homero. Já, pontualmente, Zeus, por exemplo, será sempre
Zeus, vaidoso, ardiloso, infiel a Hera, explosivo, um cara que desdenha os
mortais e é um canalha com as mulheres – suas amantes – e os filhos que faz por
aí, deixando uns e outros se ferrarem,
nas mãos da esposa traída – isso, em qualquer trama da qual participe.
Um Zeus generoso e compassivo, humilde, simplesmente seria
anti-homérico, não convenceria ninguém... não existe!

Em "Alceste", Hércules
resgata uma princesa do reino da Morte...

Uma Biografia do Heróii
através das peças do teatro clássico estreladas por ele...
A
Mitologia Grega, por causa de Homero, ganhou uma influência cultural que
atravessou eras, culturas. Foi do momento arcaico grego para o Momento Clássico,
daí para Roma, daí para o Renascimento... e se formos seguir esse rastro vamos
passar tanto por Monteiro Lobato no Brasil,
como por Percy Jackson – entre muitos e muitos ramos dessa árvore genealógica
monumental.
A todo instante, usamos alguma referência da Mitologia Grega...
seja ao dizer que estudar para determinada prova foi um esforço hercúleo... seja ao contar que conseguir que a operadora
de celular aceitasse nosso direito de cancelar um contrato, depois de uma
infinidade sofrida de contatos com o SAC deles, foi uma odisseia...
Para não falar nas Olimpíadas, o maior espetáculo esportivo do Planeta, e que
tem como origem e inspiração a Civilização Grega e portanto a sua Mitologia.

O Mais Completo Almanaque sobre
os Jogos Olímpicos... TUDO... da Mitologia Grega a Rio-2016
Então,
foi assim que aconteceu ... Para que a Mitologia Grega entrasse para o nosso
dia a dia, um poeta que ninguém garante que tenha existido compôs em poesia deuses e heróis, da maneira como os imaginou, lutando numa guerra que é bem
possível que ele tenha inventado... E por causa disso, muitos povos sonharam,
aprenderam mais sobre a vida e sobre o mundo, reinventaram esse mundo... E foi
assim, ainda, que o mestre em dizer falsidades como se deve criou também a
Literatura.