segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sonhos em Amarelo: o Garoto que Não Esqueceu Van Gogh

Quando a arte é uma questão de vida ou morte
Ana Lúcia Brandão
"Sonhos em Amarelo" é um texto literário criado a partir de uma suposição cheia de imaginação. Como teria sido a convivência da família do carteiro Joseph Roulin com o pintor Van Gogh?
A resposta é elaborada a partir do olhar sensível e lapidado do escritor Luiz Antonio Aguiar. Aguiar é um autor de literatura juvenil bastante conhecido e premiado. Segundo historiadores da arte, o período da convivência entre a família Roulin e Van Gogh foi a época de maior criatividade do pintor e se refletiu nas suas obras mais conhecidas até hoje. São dessa época os quadros "Vinhedo Vermelho", "Os Girassóis" e "O Garoto de Quepe".
A família Roulin era muito simples e passou a conviver com o pintor quando este levava uma vida muito solitária. O filho do carteiro Roulin, Camille, de onze anos, tornou-se especialmente próximo de Van Gogh. A amizade entre os dois tornou-se muito estreita porque o menino demonstrava ser mais sensível à arte do que o pai. Ao ver o mestre pintando, acompanhava suas idéias e expressão, inclusive emitindo opiniões que o pintor respeitava e assimilava. Desse modo, o menino assistiu a seus momentos de tensão criativa e também a seus arroubos de realização. Camille e sua família acompanharam também o desequilíbrio psíquico vivido pelo pintor que levou à sua internação e à sua morte. Mantiveram-se durante todo o tempo firmes no respeito e na admiração que sentiam por tão ilustre amigo.
O texto é de grande qualidade literária. Fica a ressalva de que a editora poderia ter dedicado um maior apuro visual ao livro, inserindo as imagens dos quadros comentados.

Indicações

Pelo teor poético e pela qualidade literária, a obra é uma boa indicação para alunos dos dois últimos anos do ensino fundamental II e do ensino médio, nas áreas de português, artes, geografia e ciências.

Sonhos em Amarelo: o Garoto que Não Esqueceu Van Gogh

Luiz Antonio Aguiar
Editora Melhoramentos
114 págs.
 
Fonte: é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, analista e consultora na área de literatura infanto-juvenil, e autora do livro infantil "A Lenda do Amaru" (Paulinas). 96 págs.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

ADAPTAÇÕES

Meu Primeiro Clássico de Estimação: Robinson Crusoe





                Eu devia ter menos de dez anos quando ganhei de meu pai um livrinho – (eu o tenho até hoje, cerca de  50 páginas, com ilustrações) – da Biblioteca Infantil da Melhoramentos. Era uma adaptação de Robinson Crusoe, assinada por Barros Ferreira. Li aquela história, assim como li outras, da mesma Biblioteca, submergindo nela, como se estivesse naquela mesma ilha em que o náufrago passou vinte e oito anos, distante da civilização onde nascera e de tudo o que conhecia. E foi graças àquela adaptação de Robinson Crusoe que, décadas depois, li o original, em versão integral. Foram duas aventuras bem diferentes.
                Pausa... Para registrar que, entre uma e outra, li também a adaptação generosa, vibrante, de Monteiro Lobato. Grande leitor, Lobato acreditava em colocar os grandes clássicos da Literatura ao alcance das crianças e jovens leitores. Foi por isso que nos trouxe ainda Dom Quixote e outros, fora as participações especiais de personagens da Literatura Internacional, de fadas e princesas, Sherazade e Peter Pan,  a heróis mitológicos, que volta e meia surgiam no Sítio do Picapau Amarelo.




                É o que este FORA DE ORDEM pretende: defender as boas adaptações de clássicos internacionais. Claro que há aquelas que massacram a obra original. Mas, há também as que tentam resgatar para o leitor o coração da obra: a composição e o carisma de seus personagens, o ritmo da narrativa (que tem a ver com a visão de mundo da época e daquela cultura), algo do estilo, a pulsação do enredo. Em suma, um tanto daquilo que faz da obra um livro imortal, e que pode acender a chamazinha-piloto que um dia vai levar, um dia, aquela pessoa – pelo desejo de vivenciar mais e mais longamente o clássico que a envolveu anos ou décadas antes – a empreender a leitura da versão original, o texto integral, com centenas ou mesmo milhares de páginas.
                Por definição, clássicos são leituras mais difíceis para a garotada. Difíceis porque distantes. Porque, necessariamente, são livros escritos em outra época, quando o próprio tempo passava mais devagar, as perspectivas de olhar o mundo eram diferentes e as pessoas agiam ou reagiam de modo diverso. No entanto, guardam  uma pérola de dragão, nessa caverna. Algo universal, humano e permanente, que torna essas obras capazes de atravessar eras diferentes e transitarem entre diferentes culturas, idiomas e civilizações, e continuarem tocantes. Justamente por essa resistência do essencial, se tornam imortais, clássicos.
                Ao contrário dos livros que desaparecem depois de alguns anos ou poucas décadas, e ninguém mais tem interesse em lê-los.
                 É necessário construirmos pontes entre os clássicos e os leitores jovens: marketing de sedução, informações contextuais, adaptações. E outras. Uma professora ou bibliotecária apaixonado pela leitura, com vocação para contaminar o próximo com essa paixão, cumpre lindamente esse papel. Conheço muitas e muitos assim!


Daniel Defoe



                Daniel Defoe – que entre seus muitos ofícios trabalhou como espião e agente secreto em conspirações no Reino Unido – publicou Robinson Crusoe em 1719. Por esta obra e outras, é considerado um dos fundadores do romance britânico, antecessor ilustre de Johathan Swift e de seu As viagens de Gulliver (1726 e 1735). Na linhagem das aventuras marítimas, fundada em Odisseia, por Homero, é também  ancestral de Moby Dick (1851) do americano Herman Melville. E de inúmeros outros livros e filmes Literatura e Cultura Pop, em que uma pessoa, reduzida à solidão absoluta, parecendo totalmente desprovido de recursos para sua sobrevivência, recria à custa de tenacidade, um mundo à sua volta. É um carisma lindo, eficaz, bom toda vida de ser replicado.
                Robinson Crusoe sempre teve um encanto especial para mim. Sempre foi, portanto, uma ideia, em mim, algo que eu sabia que aconteceria, um encontro marcado, ler a versão integral, até para descobrir o que mais havia nesse livro. E aconteceram de fato incríveis descobertas – até mesmo o maior tempo de duração de leitura, a produzir um alongamento da vivência do livro, uma outra experiência de transporte.
                Então, lá temos aquele homem próspero, que sai do Brasil em busca de negócios escusos – até mesmo no seu tempo. Crusoe ia para a África sequestrar pessoas para submetê-las à escravidão, já que era um negócio dos mais lucrativos, na época. Mas, castigo divino ou seja o que for, naufragou, em meio a uma tempestade, e foi parar numa ilha fora das rotas de navegação e aparentemente desabitada (ou nem tão desabitada assim, como veríamos mais adiante).
Robinson logo compreende que dificilmente será resgatado. E aqui, uma primeira espiadela no túnel do tempo, nos sugere conduzir a garotada, a quem queremos facilitar a leitura desse livro, a esse tempo quando não existiam “GPSs” nem “Celulares”. A uma outra realidade, aparentemente distante no tempo e no modo cultural. Naquela pré-história em que se podia viver desconectado. Robinson é rapidamente reduzido ao desespero, e logo decide que vai se deixar morrer, naquela praia.
No entanto, a sede o faz procurar água, no interior da ilha. Encontrando uma fonte, decide que para ter chances de ser salvo, precisa montar vigília na praia, de modo a avistar algum navio que passe ao longe – algo que não acontecerá pelos próximos 28 anos. Por isso, resolve fabricar um pote para trazer consigo a água. Mas, fabricar um pote para quem nunca o fez, e da maneira mais rudimentar, partindo da terra e dali para o barro, dali para a modelagem etc, é uma tarefa e tanto. Mais adiante, ele construirá – algo também que teve de aprender como se faz – um sistema de canalização para trazer a água. E aos poucos vai reconstruindo um mundo inteiro, por pura gana de sobrevivência.
Essa reconstrução do mundo é toda a beleza humana e universal de Robinson Crusoe. Claro que mais adiante entra na história Sexta-Feira (Ah, a antológica cena da pegada na areia, tão famosa quanto a minvestida de D. Quixote contra os moinhos de vento!), que acrescenta outros aspectos, alguns até mesmo mais complexos, na relação entre aquele europeu, cristão, incapaz de incorporar outros modos de pensar além do seu, e o “selvagem”. Que além de tudo era um canibal. E há, é claro, as peripécias aventurescas envolvendo o enfrentamento de canibais.
Bem, não quero entrar aqui nesse debate de choques culturais e “etnocentrismo”. O que me interessa mesmo é ressaltar que um clássico pode chegar ao seu leitor por meio de adaptações. E, considerando a sua riqueza, instalar-se na vida dele para sempre, ir se transformando, crescendo, acompanhando o amadurecimento da capacidade de leitura desse leitor.





O que mais importa aqui é que a maioria dos leitores de Robinson Crusoe se tornou aficionada dessa história tendo seu primeiro contato com ela - justamente o amor à primeira vista - por meio de adaptações. E não é à toa que Crusoe se tornou um personagem tão popular e seu drama, um modelo para uma infinidade de outros heróis, inclusive na cultura pop. Afinal, o que é o ótimo filme Perdido em Marte ("The Martian", título muito melhor: estrelando Matt Damon, dirigido por Ridley [Alien] Scott), se não um Robinson Crusoe passado em outro planeta? As adaptações dão cria. 
Que bom que existam boas adaptações!

Aventurescas leituras para vocês! 

domingo, 17 de abril de 2016


(SonHos em AmaReLo)


OBRA-PRIMA TRATA JOVENS
COMO GENTE GRANDE

Gustavo Bernardo *
Publicado originalmente
em O GLOBO de 06/10/2007





Uma maneira de avaliar a qualidade de um livro para jovens é observar a reação de leitura de um adulto. Se o livro “captura” a atenção e a emoção do adulto, então ele deve ser um livro bom também para o leitor adolescente. Isso acontece porque o adolescente é muito mais adulto do que supõe a nossa vã pedagogia.
Ainda que o nosso sistema social e correspondentes meios de comunicação se esforcem bastante para espichar a infância e desresponsabilizar os jovens pelo máximo de tempo possível, há reservas de inteligência, afetividade e responsabilidade que resistem. Elas aparecem e brilham sempre que um professor os trata não como iguais mas como pares responsáveis, ou sempre que eles se deparam com um livro para jovens que não os infantiliza nem menospreza, isto é, que os respeita como adultos que já são.
Entre os escritores que manifestam esse respeito, encontramos Luiz Antonio Aguiar. Sua última novela para jovens chama-se Sonhos em amarelo: o garoto que não esqueceu Van Gogh (São Paulo: Melhoramentos, 2007). Avaliação sucinta: trata-se de nada menos do que uma obra-prima. Quando a lemos, ficamos profundamente tocados, como se ainda fôssemos... jovens! Em contrapartida, pode-se supor que um jovem “de verdade”, ao ler essa novela, dirá logo que ela “não é para crianças!”, e a desejará ler por isso mesmo: para ser tratado como gente que já tem o cérebro e o coração grandes.



A solução narrativa de Luiz Antonio contempla essa condição: a história é narrada por um senhor de 37 anos à beira da 1ª Guerra Mundial, relembrando a época em que tinha 11 anos de idade. Esse narrador é um personagem da vida “real” trazido para a ficção: seu nome é Camille Roulin. Quando garoto, ele foi retratado várias vezes por Vicent Van Gogh. Um dos quadros que o retrata é dos mais populares do pintor e se encontra no Museu de Arte de São Paulo – chama-se O garoto de quepe.
A história se passa no final da vida do pintor, quando ele foi mais produtivo e ao mesmo tempo mais sofreu. O pai do narrador, o simplório carteiro Joseph Roulin, se tornou o melhor amigo de Van Gogh. O pai humilde e o seu jovem filho parecem entender Van Gogh e suas pinturas melhor do que seus contemporâneos e até do que o famoso Paul Gauguin.
Entremeando-se à descrição cuidadosa da vida cotidiana em uma aldeia do sul da França entre 1888 e 1890, quando o pintor se suicidou com um tiro no peito, lemos a descrição-narração espetacular de vários dos mais famosos quadros de Van Gogh. Dizemos “descrição-narração” porque eles nos são mostrados pela ótica de um garoto que os viu serem pintados, portanto eles nos são mostrados em movimento, desde os primeiros esboços. A percepção desses quadros pelo narrador é iluminadora, porque ele os vê com o olhar virgem tão perseguido pela filosofia daquele período, a fenomenologia.
Essa percepção colide com os preconceitos dos que não aceitavam de modo algum a “incerteza da beleza”, digamos assim, promovida e provocada pelas pinturas de Van Gogh. Os maiorais da aldeia não suportavam nem a personalidade tão agressiva quanto tímida do pintor, nem seus quadros, que lhes davam vertigem. À página 53, um deles, propositalmente sem nome, discursa com rancor: “ora, me diga alguém, o que se aprende com essas pinturas dele? São um mal! Que mensagem edificante se pode depreender delas? (...) o que o seu pincel toca, distorce. Nada do que ele pinta é reconhecível, tudo delírio, tudo falsificação. (...) Em suas telas, há tudo para os olhos, e nada para o espírito ou a mente.”



A novela de Luiz Antonio Aguiar prega todo o contrário do que diz o personagem sem nome. Ela não pretende de modo algum fazer uma literatura edificante ou didatizante, mas sim uma literatura que propositalmente distorce a realidade para melhor nos mostrar novas e inusitadas perspectivas sobre ela. Como nos quadros do pintor, ela não confirma nem reafirma os clichês que grudaram na nossa mente, mas oferece aos olhos e à imaginação do leitor outras tantas cores intensas, como devem de ser.

*
Gustavo Bernardo é professor de Teoria da Literatura na UERJ. Ele escreveu alguns ensaios, como A dúvida de Flusser e A ficção cética, e alguns romances, como A alma do urso e Reviravolta.

sábado, 16 de abril de 2016

DREAMS IN YELLOW/ VICENT IL MATTO

(Sonhos em Amarelo)





Reviews Giunti Editore edition - Italy

https://biblioragazziletture.wordpress.com/2014/05/27/vincent-il-matto/

http://latartarugasimuove.blogspot.com.br/2015/04/recensione-vincent-il-matto-di-luiz.html


http://www.goodreads.com/book/show/22064063-vincent-il-matto-quell-anno-con-van-gogh







MASTERPIECE TREATS KIDS
AS GROWN-UPS

Gustavo Bernardo *
Originally published in
O GLOBO ** on 06/10/2007
One way of evaluating the quality of a book for children is to observe the reactions of an adult as he reads it. If the book “holds on to” the adult’s attention and emotions, then the adolescent reader will also consider it a good book. This is because the adolescent is a lot more adult than vain pedagogy would have us believe.
While our social system, and the corresponding communications media, make considerable efforts to stretch out infancy and to ward young people from any sort of responsibility for as long as possible, there are bastions of intelligence, affectivity and responsibility that still resist. They show up and shine forth each time a teacher treats his pupils, not as equals, but as responsible peers, or when bright young people come across a book that neither belittles their intelligence nor treats them like babies, i.e. when they find a book that respects them like the adults they already are.
Luiz Antonio Aguiar is one of the writers who show this respect. His latest short novel for young people is called Dreams in yellow: the boy who didn’t forget Van Gogh (São Paulo: Melhoramentos, 2007). Succinct assessment: this is nothing less than a masterpiece. When we read it, we are profoundly touched, as though we still were... youngsters! On the other hand, it is easy to imagine that a “real” youngster, on reading the book, would stoutly affirm that “it’s not for children!”, and that was exactly why he enjoyed reading it: to be treated as someone who has a grown-up heart and brain.
The narrative solution adopted by Luiz Antonio encompasses this condition: the story is told by a gentleman of 37, just on the brink of World War I, as he reminisces about the time when he was only 11. This narrator is a “real-life” character transposed into fiction: his name is Camille Roulin. When he was a boy, his portrait was drawn a number of times by Vincent Van Gogh. One of these portraits became one of the painter’s most famous works and hangs in the São Paulo Art Museum – the title is: Boy with Cap.
The story takes place towards the end of the painter’s life, when he was at his most productive, and when he most suffered. The narrator’s father, a simple postman called Joseph Roulin, became Van Gogh’s closest friend. The humble father and his young son seem to understand Van Gogh and his painting better than his contemporaries do, including the famous Paul Gauguin.
Interlaced with the painstaking description of the day-to-day life style of a small village in the South of France between the years of 1888 and 1890, when the painter killed himself with a shot in the heart, we read the spectacular description-narrative of a number of Van Gogh’s most famous paintings. We say “description-narrative” because they are presented to us through the eyes of a boy who saw them being painted, so they are shown to us in movement, right from the first outline sketches. The narrator’s perception of these paintings is illuminative, because he sees them with the virgin outlook that was so sought after by the philosophy of the time, phenomenonology.
This perception clashes with the prejudices of those who in no way accept the “uncertainty of beauty”, if we may use the expression, promoted and provoked by the paintings of Van Gogh. The village big-shots had no time for either the painter’s bipolar aggressive / timid personality or for his painting, which gave them vertigo. On page 53, one of them, nameless by design, discourses with rancor: “Can anyone tell me what we can learn from his paintings? They are evil! What edifying message can they give us? (...) his brush distorts everything it touches. Nothing he paints is recognizable; it is all delirium, all falsification. (...) His paintings offer the eyes everything, but leave nothing for the mind or spirit.”
Luiz Antonio Aguiar’s novel promotes everything that is contrary to the words of the nameless character. The book has absolutely no pretensions towards edifying or didactic literature; it is a literature that purposely distorts reality so as to better show new and novel perspectives. Like the painter’s works, they neither confirm nor reaffirm the clichés that stick in our minds, but rather offer the reader’s eyes and imagination a plethora of intense color, just as they should.



Gustavo Bernardo is professor of Literary Theory at UERJ, Rio de Janeiro. He wrote some essays, like A dúvida de Flusser and A ficção cética, and some novels, like A alma do urso e Reviravolta.

  ** O Globo is the newspaper of greatest number of copies sold everyday in Brasil and one of the most influential in Brasil. 






About "Dreams in Yellow"  in YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=LAW3KWW8ui0


In Amazon:

http://www.amazon.it/Vincent-matto-Quellanno-Van-Gogh/dp/8809792254

Contact Luiz Antonio Aguiar
luizantonio.aguiar@gmail.com

quinta-feira, 14 de abril de 2016

HOMERO
 O Mestre em Contar Falsidades
ou
OS Ancestrais do Ladrão de Raios




                Aquiles – ou pelo menos o Aquiles que Homero criou em Ilíada[1] – era um sujeito complicado. Não vou aqui[2] contar o quanto pode ter contribuído para essa complicação a mãe dele, a Ninfa Tétis, obrigada por Hera a se casar com um mortal, Peleu, o rei de Ftia.[3] Nem entrar muito a fundo no rancor que ele foi acumulando em sua curta vida por ser um quase-deus, um quase-imortal (havia o Calcanhar de Aquiles).[4] Basta dizer que ele, podendo escolher seu destino, decidiu morrer jovem – se com isso se tornasse um guerreiro eternizado pelas suas proezas em batalha -; daí, recebeu a profecia que lhe revelava que, se fosse para Tróia, lutar junto aos gregos, não retornaria de lá, e para Troia ele foi, sem hesitar; noutro recadinho, lhe os deuses comunicaram que, se matasse Heitor, o príncipe e grande herói de Troia, morreria a seguir. E foi exatamente o que ele fez, cuidando de temperar o ato com requintes de desrespeito ao cadáver do inimigo, a tal ponto que os deuses do Olimpo se sentiram insultados, e mais ávidos de acabar com o rebelado Aquiles.
                As profecias – dicas sobre o futuro concedidas pelos deuses aos mortais, via videntes ou outros – perseguiram Aquiles.[5] A tal ponto que, na cena em que Aquiles parte para a frente de luta, decidido a matar Heitor, até mesmo seu cavalo, Xanto, ganha voz para adverti-lo:[6]

A isso, contido pelo cabresto, o veloz Xanto respondeu,
abaixando sua cabeça de modo que sua crina
se derramou, alcançando o chão, e Hera,
de braços brancos como o mármore,  lhe concedeu
voz para dizer: “Sim, poderoso Aquiles, protegeremos sua vida, hoje,
outra vez. No entanto, o seu fim se aproxima.
A sua morte está cada vez mais próxima. E não seremos a causa dela, mas sim um grande deus, a Onipotente Fortuna. Assim como não foi
por falta de empenho nem de esforço nosso
que os troianos despiram Pátroclo de sua armadura.
Não, o magnífico deus gerado por Leto matou-o em meio à batalha
e transferiu a glória a Heitor.
Devemos trotar ligeiros como o vento oeste,
Mais rápidos, aliás, do que qualquer vento; mas
Ainda assim é seu destino ser abatido por golpes
De um deus e de um homem.”[7]

                E Aquiles, que não aguenta mais escutar que a morte o espreita e que vai pegá-lo em breve, responde:

               Nisso, as Fúrias forçaram Xanto a se calar.
Com raiva sombria, Aquiles lhe replicou:
“Xanto, por que profetizas minha morte? É
desnecessário. Sei, e muito bem, o que me está reservado:
morrer aqui, longe de meu amado pai e também
de minha mãe. Não importa. Tudo o que interessa
é que não ordenarei a interrupção dos combates
hoje, antes que os troianos estejam enojados de
tanta guerra!”
               E com um grito, conduziu suas tropas montadas em corcéis
de poderosos cascos à linha de frente da batalha.


Uma biografia Romanceada, ficcional do Mestre em dizer falsidades como se deve... A aventura de compor Ilíada e Odisseia... Monstros, Heróis e Deuses da Mitologia criada por Homero



                E lá se vai ele, em busca de seu destino. Como sabemos, ele o encontra.
                Haveria milhares de coisas a se dizer sobre esse trecho, infinitos comentários a se fazer sobre Aquiles e sobre o Ilíada. Quero, no entanto, me concentrar num aspecto específico: o que levou Aristóteles a proclamar que Homero foi o grande mestre dos demais poetas, em dizer falsidades como se deve. [8]
                Em outras palavras, Homero, nos seus dois poemas, Ilíada  e Odisseia, [9] criou os recursos da arte de contação de histórias que deram origem à narrativa longa, o épico, que por sua vez deram no romance, na novela e no conto.  
                A  poesia arcaica grega era restrita a hinos de adoração aos deuses. O poeta estava ostensivamente presente, homenageando sem cessar os deuses olímpicos e agregados, seus atributos, sua beleza, sublimidade, seu poder, numa postura de submissão e adoração religiosa. A poesia era a revelação de momentos dos imortais, para pasmo e assombro das criaturas humanas, que não participavam dessas cenas, a não ser muito, muito raramente.[10] Redescoberto pelo  Classicismo Grego – Atenas, sec. V a.C. –, quando os poemas de Homero ganharam pela primeira vez versão escrita e estonteante influência sobre os cidadãos,[11] descobriu-se também em Homero a fonte de técnicas e recursos para se compor cenas, para envolver o espectador[12], emocionalmente, nos conflitos da trama, nos dilemas dos personagens, na agudeza de um diálogo...
                Hoje, lemos uma passagem como essa, de Aquiles e seu corcel de batalhas dialogando, sem estranheza. Mas, nada disso existiu antes de Homero. A personalidade de Aquiles foi lapidada por Homero, e expressa por ele em ação, em cenas (não mais em declarações, ou hinos) – um recurso muito mais envolvente. A ação, o movimento da cena, sem a infiltração constante e, de certo modo, monocórdia, de um poeta – o deixar a cena correr por si, a ação puxar a trama, ganhar vida, o desempenho dos personagens livres de interferências e interpretações on line no texto... Tudo isso é exaltado por Aristóteles como a arte da verossimilhança, de criar um momento que não está no real, nem na mentira... De possibilitar ao leitor viver  a cena como se ela fosse de verdade...
                De dizer falsidades como se deve.
                Homero, segundo Heródoto, com esses dois poemas, cunhou os próprios deuses [13]. Para tanto, compilou lendas regionais (como Afrodite e o próprio Zeus), histórias de deuses vindos do Oriente (como Dioniso) e a tradição oral. Alguns deuses ganharam trono no Olimpo, outros não. Alguns foram ratificados, outros rebaixados, ou mesmo relegados a plano inferior (como Mnemosine, a Memória, mãe das Musas, importantíssimas na tradição grega). Os imortais ganharam atributos, poderes, características físicas e de temperamento.[14] Ou seja, de retalhos, ele compôs um conjunto, um contexto – fundou a Mitologia.[15]
A dicotomia Imortal x Mortal (ou imortalidade x perecibilidade, um tema permanente e universal da Literatura), com todas as suas consequências e derivações, ficou de uma vez por todas estabelecida como a separação entre o divino e o  mundano. Esse talvez seja o aspecto mais amplo da criação de Homero. Já, pontualmente,  Zeus, por exemplo, será sempre Zeus, vaidoso, ardiloso, infiel a Hera, explosivo, um cara que desdenha os mortais e é um canalha com as mulheres – suas amantes – e os filhos que faz por aí, deixando uns e outros  se ferrarem, nas mãos da esposa traída – isso, em qualquer trama da qual participe.[16] Um Zeus generoso e compassivo, humilde, simplesmente seria anti-homérico, não convenceria ninguém... não existe!


Em "Alceste", Hércules 
resgata uma princesa do reino da Morte...

Uma Biografia do Heróii 
através das peças do teatro clássico estreladas por ele... 

                A Mitologia Grega, por causa de Homero, ganhou uma influência cultural que atravessou eras, culturas. Foi do momento arcaico grego para o Momento Clássico, daí para Roma, daí para o Renascimento... e se formos seguir esse rastro vamos passar tanto por Monteiro Lobato no Brasil,[17] como por Percy Jackson – entre muitos e muitos ramos dessa árvore genealógica monumental.



A todo instante,  usamos alguma referência da Mitologia Grega... seja ao dizer que estudar para determinada prova foi um esforço hercúleo...  seja ao contar que conseguir que a operadora de celular aceitasse nosso direito de cancelar um contrato, depois de uma infinidade sofrida de contatos com o SAC deles,  foi uma odisseia... Para não falar nas Olimpíadas, o maior espetáculo esportivo do Planeta, e que tem como origem e inspiração a Civilização Grega e portanto a sua Mitologia.

O Mais Completo Almanaque sobre 
os Jogos Olímpicos... TUDO... da Mitologia Grega a Rio-2016



                Então, foi assim que aconteceu ... Para que a Mitologia Grega entrasse para o nosso dia a dia, um poeta que ninguém garante que tenha existido compôs  em poesia deuses e heróis, da maneira como os imaginou, lutando numa guerra que é bem possível que ele tenha inventado... E por causa disso, muitos povos sonharam, aprenderam mais sobre a vida e sobre o mundo, reinventaram esse mundo... E foi assim, ainda, que o mestre em dizer falsidades como se deve criou também a Literatura.






[1] A História da guerra dos gregos contra a cidade de Ílion, ou, como a conhecemos, Tróia.
[2] Mas, conto bem essa história em Homero, aventura mitológica.
[3] Zeus estava de olho em Tétis; daí, a mulher dele, Hera,  não sendo nada boba, enganchou a ninfa à força em Peleu.
[4] Quase, sempre quase... É como Homero repetidamente o chama, como se fizesse questão de acentuar a frustração do filho de Tétis de não ser um Deus completo. Ou como se quisesse persegui-lo, deixa-lo ainda mais louco de raiva, ao longo de todo o poema, com essa pecha... tipo bullying contra Aquiles!
[5] Nas histórias da Mitologia, as profecias, muitas vezes pareciam maneiras de os deuses interferirem no caminho dos mortais, manipulando suas ações e decisões. Verdadeiras armadilhas,  joguetes dos olimpianos para afastar o ´pocio decorrente da imortalidade. 
[6] Ilíada, Canto XIX, versos 404-424. Botar um animal para falar, e contracenando com um  herói é uma ousadia bem homérica. Uma possibilidade (licença) poética inventada por ele...!
[7] O deus foi Apolo, que deu um empurrãozinho para Aquiles ser ludibriado nesse episódio crucial e cumprir o roteiro que lhe fora reservado. O homem foi Páris, o mesmo que raptou Helena, um inepto geral, que precisou de Apolo para firmar o arco no qual dispararia a seta envenenada contra o calcanhar do quase-deus.  


MITOS de todo o mundo transformados em aventuras...







[9] Odisseia, por sua vez, é a história do retorno de Odisseu – nome grego de Ulisses -  para casa, a ilha na qual era rei, Ítaca, e para sua esposa, Penélope. Não vou entrar aqui na chamada Questão Homérica – Homero existiu ou não? Os dois poemas, Ilíada  e Odisseia, foram escritos pelo mesmo autor? A Guerra de Troia aconteceu mesmo? O inventor da História, Heródoto, e o universal Aristóteles não questionam a existência de Homero. Poética, de Aristóteles, uma das obras fundamentais do pensamento estético da Humanidade, é, todo ele, uma homenagem a Homero. Com essas referências, por que vou dar valor a esse desconstrutivismo ocioso e chato?
[10] Assim são os poemas de Hesíodo, Teogonia  e O trabalho e os dias.  
[11] Nascidos em Atenas, homens,  livres e proprietários. Na época, não se entendia a educação dos jovens cidadãos , a sua preparação para assumir a condução dos rumos de Atenas, sem a leitura de Homero.
[12] Aquele que assistia à recitação (musicada) do poema, a apresentação do aedo – aquele que compõe e canta os poemas, geralmente um artista mendicante, visitando cidades e apresentando-se em troca de comida e um canto para dormir, como se descreve Homero, a partir de um retrato que ele mesmo criou e transmitiu, em Odisseia, Canto VIII, com o personagem Demódocos... Havia outro artista semelhante, o rapsodo, que entretanto não compunha suas próprias obras.
[13] E também Hesíodo, segundo o Pai da História. Histórias,  Livro II, 53.
[14] Homero coloca deuses e mortais para contracenarem  em diversos momentos, o que não seria de bom tom, ou seja, seria visto como indevida promiscuidade (entre o divino e o mundano). Mas, foi esse um dos elementos que tornaram os deuses tão atraentes – tão humanizados, em seus defeitos e paixões. Foi isso, enfim, que tornou os deuses gregos, realmente, imortais.  
[15] É o que faz a diferença entre lendas e uma Mitologia, esse conjunto, essa consistência, e é delicioso saber que isso é obra, não extraterrena, nem sobrenatural, mas de um poeta genial: Homero.
[16] Hera nunca parte para cima de Zeus – sempre se vinga nas mulheres que o Senhor dos Deuses seduziu, transformado em chuva de ouro, cisne e outros deslumbres... E nenhum filho bastardo de Zeus sofrerá tanto quanto Hércules.



[17] Hoje, Lobato pode ser uma leitura difícil para alguns jovens. Mas vale a pena o esforço: topar o desafio. Os 12 trabalhos de Hércules, o Minotauro... estão entre as melhores aventuras com a Mitologia Grega que se pode ler. E nenhum Hércules será tão dramático, tão cativante e heroico quanto o de Lobato...


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http://www.saraiva.com.br/homero-aventura-mitologica-7579966.html
http://www.travessa.com.br/odisseia-olimpica/artigo/38384e61-7084-4fba-adc9-3bd261f206a8
http://www.extra.com.br/livros/ArtesCinemaTeatro/LivrodeTeatro/Livro-Hercules-Luiz-Antonio-Aguiar-4289788.html
http://www.buscape.com.br/que-haja-a-escrita-luiz-antonio-aguiar-8530504453