quarta-feira, 6 de abril de 2016

De Júlio Verne
a
Interestelar

A Ciência faz Histórias





               
                No  meu livro de terror + humor + aventura, “Memórias mal-assombradas de um fantasma canhoto”, um garotão maneiro, o Anjão, tem ideias muito instigantes sobre o que são fantasmas. Numa cena, ele diz: “... E se o que a gente chama de fantasma forem habitantes de um outro universo que às vezes se mistura com o nosso? Os cientistas chamam isso de interação... Pode acontecer. Só que a matéria e a energia de um universo paralelo são diferentes das do nosso. Daí, os habitantes desse universo parecem... outra coisa.”




                Tudo isso é parte de uma armadilha que ele e a turma dele, “Os Achudos”, estão aprontando pra cima do fantasmão que assombra essa história.
                Bem, claro que o Anjão é um nerd tipo vidrado em ciência.
                Mas, meu caso aqui é dizer que a Literatura – de aventura, mistério, suspense – precisa atualizar seus temas. E uma dessas fontes são as mais recentes descobertas e especulações das diversas ciências, da tecnologia, que anunciam um universo magnificamente interessante, que se tornará acessível para todo mundo, nos próximos anos.
                Que serão o Universo no qual essa garotada de hoje fará sua vida.
                Que seria um barato começar a imaginá-lo, como escritores como Júlio Verne, lá no século XIX, alimentou a imaginação de muitos leitores seus, que se tornariam cientistas...







                Vou contar uma história curiosa...
Em Viagem à lua (1865), um projétil lançado da Terra deveria descer na Lua, numa cratera chamada Mar da Tranquilidade. Isso não aconteceu, no livro de Verne, para frustração de muitos leitores, que sonhavam com a conquista do nosso satélite natural, mesmo que fosse na ficção. No entanto, muitos desses leitores se tornaram cientistas e inventores. E todos os cientistas e inventores do século XX, todos os que mantiveram o sonho de chegar à Lua, foram necessariamente leitores de Júlio Verne, que os contaminou com o micróbio da ciência e, especificamente, das viagens espaciais.
Daí, em 20 de julho de 1969, quando a Apollo 11 alunisou (desceu na Lua), pousou... no Mar da Tranquilidade. Porque Verne adivinhou que isso iria acontecer? Não creio... Mas creio que aqueles cientistas-leitores de Verne, desde quando resolveram dedicar sua vida à ciência, à astronomia e à engenharia especial, somente tinham um lugar, em suas mentes, onde o “pequeno passo de um homem, mas um passo gigantesco para a Humanidade” deveria ser dado: no Mar da Tranquilidade. Verne e Viagem à Lua  foi a inspiração de muitas dessas pessoas que idealizaram e realizaram o Projeto Apollo.
Em suas “Viagens Maravilhosas”, a série de aventuras que escreveu, Júlio Verne botou em cena diversos ramos da ciência. O mais evidente foi em “20 Mil Léguas Submarinas” (1870), com o prodígio do submarino Nautilus e do seu gênio, o capitão Nemo. E não podemos esquecer que outro dos personagens principais, o Professor Aronnax, é um grande naturalista, especializado em vida marinha – todo um mundo desconhecido ainda da grande maioria das pessoas na época.
Também em Volta ao mundo em 80 dias (1872), entrou um tanto de invenção, de atualização, sem os quais a trama seria impossível. Phileas Fogg propôs a aposta ciente de que novidades nos diversos meios e vias de transporte, que pretendia utilizar, tornariam possível dar a volta ao mundo naquele prazo que os outros achavam impossível.

Verne assim colocou a ciência dentro da história. As novidades. A imaginação de um mundo diferente, desafiante totalmente renovado, no século seguinte. Era um homem que acreditava no futuro. E que enxergava como esse futuro idealizado atraía o interesse dos leitores. Sua Viagens Maravilhosas foram um espetacular sucesso. E seus livros são lidos até hoje com prazer.








Bem, mas se Verne usava  como fantasia  a viagem do homem à Lua, ou seja, uma aventura restrita ainda ao nosso micro-sistema orbital (Terra-Lua), Arthur Clarke, em 1968, um ano antes de Neil Amstrong pisar o solo lunar, lançava um livro que iria fazer borbulhares todas as mentes daquele tempo quando ainda não eram chamados de nerds. Foi 2001, uma odisseia no espaço[1].  Na trama, uma missão espacial vai da Terra a Júpiter desvendar um mistério que tem a ver com uma civilização antiga, de nossa galáxia, e que criou uma maneira de fazer contato conosco, quando atingíssemos um certo nível de desenvolvimento científico e tecnológico. Enfatizo: se a ação, agora, já não é mais restrita à nossa vizinhança orbital mais próxima, ainda não deixa o Sistema Solar.
Dando outro grande salto, temos o recente Interestelar (2014). Novamente, uma missão especial, que sai em busca de um planeta alternativo para a espécie humana – já que a Terra se tornara inabitável (irrespirável)... E que acaba defrontando-se com as singularidades de um buraco negro,  com o labirinto em que as leis da relatividade transformam o espaço-tempo, o antes e o depois, o passado e o futuro.



Quem lê um texto farejando as intenções do autor – instinto detivesco ! – já deve ter percebido aonde quero chegar. O “universo” está se expandindo (não somente no cosmos, de fato) na ficção, nas demandas e exigências de nossa imaginação. Há cento e sessenta e poucos anos, juntávamos um bando de cientistas, que construíam um gigantesco super canhão (foi assim em “Viagem à Lua”), que disparava um projétil para alcançar a Lua. Hoje, nos envolvemos nas intimidades das forças fundamentais que criaram e sustentam este e outros universos – já que não mais se pensa em um único Universo, mas em múltiplos universos, no MULTIVERSO, segundo concepção corrente.  
Ou por outra... quando eu tinha 11 anos, meio século atrás, no colégio religioso onde estudei, se não era declaradamente pecado, era quase,  perguntar-se se haveria outros planetas, além do Sistema Solar. Em 1989, o Telescópio Hubble foi posto no espaço, um ano depois começou a nos enviar fotografias, e hoje sabemos que existem (porque já os “enxergamos”) pelo menos outros dez mil planetas, além das bordas do Sistema Solar, o que sugere fortemente que existam incontáveis planetas, galáxia afora, e sabe-se lá quantos e o que mais, nesse universo de bilhões de galáxias.




Novamente: o universo está ficando maior. A imaginação de nossos leitores – o que eles prenunciam do futuro próximo -  está com novas demandas, novas exigências. A ciência, as descobertas, as especulações científicas, sempre foram fonte, tema, ambientação para grandes aventuras, para livros e autores muito populares. Não estaria em tempo de os autores brasileiros entenderem um pouco mais de ciência? lerem um pouco mais sobre as descobertas científicas que estão se acumulando? Suprirem-se de informação e superarem esse atraso, em relação ao que o mundo lá fora lê, sonha, conversa...?



Uma dica... Um joguinho de computador super popular entre a garotada: Minecraft. Tem até romances-aventuras passados no universo Minecraft, e que são avidamente lidos por essa garotada que a gente cisma que não lê. Podem não ler o que alguns de nós acham que eles deveriam ler, embora eles não achem. Mas lêem essas histórias... E tem mais. O jogo é uma divertida exploração das concepções de universos paralelos, própria dos nerds e dos cientistas mais ousados. Entra-se por um buraco, uma fenda, e se sai num novo cenário, numa nova “textura”... num outro universo. E o garoto e a garota estão lá, se habituando a essa maneira nova de entender dimensões, tempo e espaço... que bem podem ser aquela à qual estarão vivenciando no cotidiano do seu mundo, daqui a alguns anos... (enquanto alguns dos “velhos”  de hoje vão insistir em temáticas locais, analógicas, ditas edificantes e/ou cívicas...).
Um passeio por capas de revistas já é o bastante para “suspeitarmos” quantos novos temas se abrem para a imaginação e quantas e quantas histórias há para serem escritas. E não somente pensando em Física, Astronomia...







O passado tem encantado tanto quanto a imaginação futurista, e desde Indiana Jones que a Arqueologia está na moda e nas fantasias desse pessoal que queremos como nossos leitores. Tudo a ver!



ARQUEOLOGIA E AVENTURA

Mistérios do passado
dando encrenca para uma garotada 
aqui e agora! 
   





A Engenharia Genética tem proposto soluções para o tratamento de doenças que já aterrorizaram tanto as pessoas, que sequer seu nome era pronunciado dentro de caso – o câncer, por exemplo... que hoje, muitos casos, é tratável e curável[2]. Não há mais sentido em se apavorar com o câncer, o diagnóstico de câncer não é mais uma sentença de morte, e esse é um mundo diferente do que há duas ou três décadas atrás.  
E olha que nem vou falar de informática, inteligência artificial, robótica... [3]





E das cavernas e subcavernas da Internet... e de outras nets ocultas... 
E sabe-se lá mais o que poderíamos escavar, inventar, xeretar...
Nesse novo cosmos, há tantos dilemas, tantos conflitos (a velha, permanente, universal Natureza Humana) a explorar, testando o que muda, o que não muda quando pomos nossos personagens indo até onde nenhum homem nem mulher jamais esteve. 
Em suma, vamos atualizar as histórias que escrevemos? Vamos ler mais sobre ciência, sobre as descobertas que acontecem num ritmo e num volume doidos? Vamos estimular que mais e mais leitores nossos se apaixonem por esses temas?  Que chamar alguém de futurista seja tão legal quanto chamá-lo de irado? Vamos corresponder à paixão e ao pioneirismo, a coragem para ser pousado, arrebitado e diferente, dos nerds?  ... E ao que mais atrai os leitores que tanto desejamos agradar?[4]

Montes deles, de preferência!

Vida Longa e Prosperidade para todos!
Que a Força esteja com vocês!
Nerds... Tamo’Junto! (Eu  nerds)
e=mc2 até segunda ordem!

               




[1] Estou pulando um bocado de gente, como H.G. Wells, com A guerra dos mundos, de 1868, mas minha intenção não é escrever sobre ficção científica, por isso, esta simplificação serve bem ao tema... Creio que a maioria das pessoas não leu 2001, uma odisseia no espaço, o que é uma pena, e conhece a história (com modificações em relação ao original) apresentada na antológica versão cinematográfica, do mesmo ano, dirigida por Stanley Kubrick. Por exemplo, o Planeta-destino da nave comandada pelo computador serial killer, HAL, é Saturno, no primeiro livro, e Júpiter, no filme e nos episódios seguintes (2010, o ano em que faremos contato). Vou resumir bastante a trama, aqui, mencionando somente o quen é necessário para este artigo.
[2] Não deixa de ser irônico que,  enquanto no mundo doenças como essa são alvo de pesquisas avançadíssimas, no Brasil (mas não somente aqui), doenças do século XIX, como a dengue, a zica e a febre amarela constituam o pesadelo atual de nossa população.  
[3] Ave,Isaac Asimov!
[4] Usei essa palavra por pura provocação porque tem muito chato que diz que não devemos procurar agradar nossos leitores. Eu quero sim... agradar, adular, babar, cativar, seduzir, intrigar... O que aliás é uma meta totalmente consistente com a Cultura e a Literatura Pops. Como Júlio Verne bem fazia! 


sexta-feira, 1 de abril de 2016

POE SOB SUSPEITA
Edgar Allan Poe: Fundador da Literatura Policial

[lamento: contém estraga-prazeres, ou spoilers]



Edgar Allan Poe
                                                                               (1809-1849)

            Poe tem hordas de fãs em todos os idiomas, de todas as idades, inclusive é claro no Brasil, por conta de seus contos de terror. Além disso, seu poema, O Corvo, é um dos mais cultuados no mundo inteiro pelos aficionados do gótico.  Mas, há um Poe extremamente importante, sobre o qual pouco se fala. Aquele que lançou os fundamentos da Literatura Policial Moderna, com três novelas: Os assassinatos da Rua Morgue (1841), O mistério de Maria Roget (1842) e A carta roubada (1844). É desse Poe que quero tratar aqui. Por obra sua, a Literatura Policial se tornou um gênero com identidade (linguagem) própria. 
            Em primeiro lugar, é importante fixar o que chamei de “Literatura policial moderna”. Não estou mirando a mais contemporânea, mas justamente aquela que se introduziu e ganhou espaço no gosto popular, na virada para os Tempos Modernos. Uma Literatura que se inicia, ou tem a sua primeira (e grande) estrela com Sherlock Holmes (com Arthur Connan Doyle, Um estudo em vermelho, 1887/1888) e prossegue, somente para pontuar o caminho com astros de primeira grandeza, com Hercule Poirot (Agatha Christie, O misterioso caso de Styles, 1920).[1]


            Holmes e Poirot são descendentes óbvios do detetive que Poe havia criado para estrelar suas novelas, Auguste Dupin. Morando em Paris, Dupin é um livre pensador, algo anarquista, dotado de miraculosa inteligência, e igualmente prodigioso poder de observação e dedução. Além disso, é um solitário, sem família e de passado largado na penumbra. E acima de tudo, um excêntrico. Não tanto como Holmes, mas já bem encaminhado. Não é um policial profissional, e se diverte resolvendo casos que desnorteiam a polícia parisiense, debochando da mediocridade (ou menos do que isso) dos inspetores, detetives etc. Um amigo e admirador que fica sem nome nas novelas é o narrador das histórias – seu biógrafo (como Watson é o biógrafo de Holmes). Ele acompanha o passo a passo das investigações de Dupin, faz perguntas que o leitor comum precisaria fazer para entender como “A” deu em “B”. É o chamado sidekick. Serve de escada para que Dupin exiba seu brilhantismo. Quando não é esse narrador que desempenha esse papel, coloca-se ali um agente da polícia francesa e dá na mesma.

Agatha Christie: A Dama do Crime. 

            Ora o sidekick é uma belíssima técnica que, trazida para a Literatura Policial, [2] ajudou decisivamente a compor os enredos que todos nós lemos febrilmente. Se não fosse a atuação do sidekick, a história ficaria chatíssima. Holmes entraria na cena do crime, olharia para um lado, depois para outro, veria coisas as quais ninguém mais daria atenção, mas que para ele seriam pistas e, em dada altura, sem ter dito nada, apontaria um personagem que esteve passeando sob nossos narizes em cena e diria: “Prendam esse cara! Ele é o culpado!”.  Tudo apenas remoendo pensamentos e nada revelando para a plebe mortal em volta e....
Fim.
            Foi Poe quem inventou essa maneira de contar a história, como se fosse por uma perspectiva dupla: a do detetive, somada a do sidekick. Sendo que a segunda acompanha e exige as explicações da primeira. O sidekick mais famoso é o de Holmes, o médico John Watson, seu companheiro de aventuras, amigo devotado e biógrafo. O de Poirot varia; pode ser o detetive Japp, da Scotland Yard, ou o Capitão Hastings, militar aposentado.[3]
            No desenvolvimento desse recurso, temos a novela policial. Não fosse isso, não teríamos o mistério, o suspense. O passo a passo. As pistas falsas. Os suspeitos que são inocentes, embora tudo aponte para eles. A risada final do detetive.

 Homenagem a Edgar Allan Poe em cinco contos.
 O meu, CORTINA, é em cima de A Carta Roubada. 


Também essa caracterização do gênio + excêntrico, fundada com Auguste Dupin (Poe) é herdada pelos mais destacados detetives da linhagem poeriana.[4] Nada poderia exceder Sherlock Holmes nesse aspecto, mas o caso é que o próprio habitante estranho da Baker Street se vê obrigado a comentar as semelhanças que tem com Dupin, em Um estudo em vermelho. A distância maior que existiria entre os dois, segundo Holmes, é que Dupin é um personagem de ficção, enquanto ele atua no mundo real.
Poirot, com seu bigode tratado a geleia real e outras manias, é um compulsivo contumaz. Esse é seu poder: ele busca uma ordem em tudo. Uma lógica. O que sai da ordem (como o crime) deve ser revelado e reconduzido (à prisão, ao cadafalso)[5].
No entanto, essas falhas de caráter, se é que o são, tornam a identidade do detetive mais marcada e o humanizam, diante do leitor, que, caso esse elemento não existisse, poderia se sentir esmagado pela esperteza do sujeito, ou mesmo antipatizar com sua infalibilidade. Como se sabe, Holmes[6] é dado a depressões, não lida nada bem com o sexo feminino, tem um estranho caso com Watson – tanto que entra em crise quando o seu biógrafo se casa –, e é viciado em ópio. Poirot, por seu lado, tem a vaidade, o ego, como seu ponto fraco, embora não se deixe perturbar por quem não reconheça sua superioridade em relação à malta humana. Ele se julga um aprimoramento da espécie e preza quem seja capaz de concordar com isso.

Sir Arthur Connan Doyle
                                                 (1859-1930)

Mas, não é somente por contracenarem com sidekicks e por exibirem uma caracterização espelhada em Dupin que estes personagens e estas histórias podem ser apontadas como descendentes de Poe. E aqui precisamos focar principalmente a pultima novela do autor americano: A carta roubada.
                [E aqui vai o spoiler...] Nessa novela, uma carta comprometedora, por razões amorosas, algo a ver com infidelidades nas altíssimas rodas da aristocracia francesa, está de posse de um homem sem escrúpulos. Sabe-se que esse personagem a tem, que a roubou dos aposentos de uma importante dama, e sabe-se que ele mais cedo ou mais tarde a usará para chantagear a dona da carta, talvez criando uma crise política muito séria no país. A polícia secreta francesa já realizou inúmeras buscas em sigilo na casa desse personagem, em vão. Tudo indica que ele facilita a entrada dos policiais – finge que não sabe que recebe essas visitas não convidadas - , como se, com sua inteligência, debochasse deles, desafiando-os a encontrar a carta. Desesperado, o chefe da polícia secreta, a contragosto, procura Dupin e lhe pede ajuda.


Em meu "Quem Matou o Livro Policial"
                                                   três mistérios "impossíveis" se cruzam.
E a solução está nos segredos e artes de se escrever
Literatura Policial!




                Dupin, bem recebido nas altas rodas, é amigo da personalidade política que furtou a carta. Visita-o, então, e volta de lá (simplificando um tanto o enredo)[7] com a dita cuja, a carta. Embasbacado, o chefe de polícia não pode acreditar. Colocou seus melhores homens, nessa revista. Procurou em todos os lugares possíveis, usando toda a tecnologia (do século XIX) de que dispunham. Claro que está feliz em recuperar a carta, mas... Como?
                Dupin ri... Conhecedor do ladrão, de sua vaidade, imaginou que ele estaria mesmo jogando uma partida-desafio com a polícia. E que sabia ser inútil inventar um esconderijo para a carta. Por mais disfarçado que fosse, por mais camuflado, por mais oculto.... o buraco, o cofre, o que fosse, seria encontrado. Além disso, não resistiria à tentação de fazer a polícia de boba, de provar seu brilhantismo e a imprevisível originalidade de seus estratagemas. Então, o que fez o sujeito?
Não escondeu a carta.
Isso mesmo, colocou-a onde estivesse à vista de todos os que xeretassem a sua residência, sobre uma mesa em sua biblioteca, em meio a outras cartas. Um envelope largado ali, como se não tivesse importância. E como ninguém pensara em procurar algo que não estivesse escondido... Não a viram.

Mistérios também no Brasil... Uma equipe da garotas detetivescas investiga como 
aconteceu... o que não podia acontecer... 


Mas, Dupin, por dedução e observação (geniais) logo matou a charada. E venceu o duelo de inteligência com o ladrão da carta (o que na verdade importava a ele mais do que a recompensa e mais do que humilhar mais uma vez a polícia secreta francesa, que costuma tentar tratá-lo com desdém).
E aí está toda a tessitura da novela policial que vai dar em Sherlock Holmes, em Poirot e outros. A novela policial institui (e essa é uma das razões de ter tantos cultuadores) um desafio entre o leitor e o autor. O leitor tenta adivinhar quem é o criminoso: não pode (e isso faria a leitura perder a graça) ir às últimas páginas dar uma olhada. Mesmo sabendo que a resposta está lá. Com o uma assombração. Tem de resistir à tentação. E isso não é fácil.  O autor deve disfarçar elementos, como se não fossem pistas, e o culpado, como se não fosse suspeito; e fazê-lo passar bem debaixo do nariz do leitor. Não vale também ele, o culpado, entrar na história no último capítulo.Tudo tem de estar à vista do leitor... sem que ele o enxergue.
Agatha Christie já fez de todo tipo de pirueta em torno dessas regras. Já colocou como culpados todos os suspeitos, o narrador da história, o detetive, a vítima. E todas as novelas resultantes dessa maquiavélica deliberação da autora de lograr seu leitor são geniais porque burlam as regras sem quebrá-las.[8]



E é assim, Edgar Allan Poe, que criou um terror metafísico, sem monstros (a não ser em poucos contos), é culpado também dessas tramas que nos arrastam madrugada adentro sem conseguirmos deixar o livro de lado – e sem pular para o final. Apreciando a ansiedade, o sofrimento (o adiamento da satisfação) em que nos envolvem. Seu Auguste Dupin riria um bocado se soubesse que tem mais essa arte a acrescentar a seu currículo.
Finalmente... Na linhagem de POE-SHERLOCK, os apreciadores do mistério encontaram uma obra-prima em O NOME DA ROSA (1980), de Umberto Eco, adaptado para para o cinema com Sean Connery no papel principal, em uma interpretaçãomagistral e  comovente (ele é um monge que,  sob a ameaça constante da Inquisição, arrisca-se a amar o conhecimento e os livros). Nesse romance  antológico, estreia de Eco em ficção, desenvolve-se uma intrincada trama envolvendo um livro proibido - o volume sobre Comédia, de Aristóteles, que, segundo a rigidez religiosa de certas ordens e clérigos da Baixa Idade Média, teria o poder, ao enaltecer o riso, de destruir o temor a Deus e a própria Fé. Para ocultar esse volume, uma série de assassinatos são cometidos, num convento que em muitos aspectos relembra os ambientes góticos, principalmente pela sua labiríntica biblioteca  (o bibliotecário cego, Jorge, é uma bela homenagem a Borges, Senhor das Bibliotecas, principalmente as inventadas, fã e escritor de novelas policiais), destinada pelos monges conservadores a esconder livros "perigosos", e não a dar acesso a eles ao público.



Há uma deliciosa orgia de referências a diversas obras policiais. O "investigador" , Connery, é Will de Baskerville (aludindo, é claro, a "O cão dos Baskervilles". justamente a novela policial sherloquiana com mais evidentes requintes góticos). Seu sidekick é o noviço Adso (.... Watson), que tembém é o narrador da história, como descobrimos ao final.  O veneno, bem à lá Agatha Christie, é a  arma do crime, num engenhoso e irônico disfarce.
No entanto, o arremate é a personalidade racional-observadora-dedutiva de Will de Baskerville, sempre vaidoso de sua superioridade intelectual, um sherloque de batina perfeito e a referência mais apaixonada que Eco faz à tradição das novelas policiais.
Trata-se de um romance em que a linhagem foi, em detalhes, deliberadamente cunhada e evidenciada pelo autor.
Em outra medida, mas ainda na linha dos "excêntricos", J.K.Rowling resolve brincar com o público leitor de novelas policiais, lançando um livro (uma coleção, de fato) com um pseudônimo, que é em si uma excentricidade literária - principalmente porque é fartamente anunciado, que "Robert Galbraith" e seu detetive Carmoran Strike têm a mesma perpetradora das histórias de Harry Potter. Ambos, de certa maneira, são personagens  de Rowling.
Strike é um perdido, expulso da vida social,  endividado ao desespero. Quando o conhecemos (O chamado do cuco), acaba de desfazer um turbulento casamento, é alcóolatra e tem uma prótese no lugar de uma perna que perdeu na Guerra do Afeganistão. Rola muita coisa até sabermos que aquela figura que não parece capaz de cuidar de si mesmo no mundo, e muito menos de resolver qualquer mistério, é um herói de guerra e um tremendo detetive, combinando qualidades dos farejadores  e dos gênios dedutivos, Sem contar que Rowling estreia no gênero executando uma cabriola para dissimular seu criminoso que estaria bem ao gosto  de Agatha Christie, em seus mais inusitados, desconcertantes e surpreendentes momentos (como em O assassinato de Roger Ackroyd).
Aí está portanto, O mundo do crime. Aqui, não valem assassinatos indiscriminados., assassinos anônimos, violência desembestada, balas perdidas, acasos nem coincidências. Aqui, cada detalhe é um ingrediente de composição. IUma peça a ser colocada no seu lugar devido, no quebra-cabeças final. O crime, principalmente o assassinato, vira espetáculo e  jogo. Não teria graça de outro modo. Aqui, o crime TEM de entreter, a novela deve apresentar enigmas, mas é obrigada a compensar a ansiedade e as expectativas do leitor com respostas. Finais em aberto são defeito de fabricação. Tudo aqui TEM de ser solucionado. Tudo aqui é FICÇÃO.



J K Rowling









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1] A criação anterior de Agatha Christie foi Miss Marple, em 1930, estrelando  A  casa do Vigário. É ótima. Sua excentricidade é ser uma velhinha aparentemente boba, avoada, mas que, sempre trazendo exemplos de vida de sua cidadezinha no interior, St. Mary Mead, desvenda a alma humana de uma maneira privada de compaixão ou de ilusões. Para ela, ao que parece, todos são passíveis de cometerem um crime, até prova em contrário. Por isso, nunca se deixa iludir diante das falsidades e dissimulações de cena dos suspeitos: é impossível enganar Miss Marple, todos sabem disso.  
[2] Esse tipo de personagem já era utilizado na Literatura. Há quem considere Sancho Pança o sidekick de D. Quixote – até porque é Sancho que dá a versão pão-pão-queijo-queijo (e no caso dele a alusão a comida é pertinente) aos delírios encantados de D. Quixote. Por ironia, a palavra ensanchar significa justamente isso: encantar, com seu correspondente em espanhol.De certo modo, é o mesmo esquema funcional de outra dupla famosa, e não por novelas policiais: Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) do seriado conspirativo Arquivo X. A técnica sidekick não tem pátria nem gênero... Scully é uma tremenda médica (na função Sancho Pança) que procura provas físicas e concretas em todos os casos, opondo-se às hipóteses esotéricas de Mulder; acredita na ciência oficial, e Mulder, o lunático quixotesco, que acredita ser possível empreender campanha contra o poder (que está aliado aos alliens para dominar a população terrestre), e que caça discos voadores desde que sua irmãzinha caçula, na infãncia, foi abduzida. Ambos pertencem a uma equipoe mal-falada no FBI que investiga os casos estranhos, os Arquivos X. Mulder tem razão, no final, e Scully vai ser forçada aos poucos, graças a sua integridade, a admitir isso. O final do seriado deixou muitos fãs-viúvos lamentantes , em todo o mundo, até hoje. 



[3] Há uma composição de Detetive Gênio-Excêntrico e Sidekick terra-a-terra magnífica: Nero Wolfe + Archie Goodwin, criados em 1934 pelo escritor americano Rex Stout, e que desenvolveu popularíssima carreira, ao longo de mais de 30 mistérios, até 1975. Wolfe pesa mais de 200 quilos, é alcoólatra gourmet (não pára de tomar cerveja, mas somente da marca de sua preferência), cultiva orquídeas (é um profissional e mestre nisso, famoso no mundo inteiro; ou seja, no mundo dos donos de orquidários) e quase nunca sai de casa. Sua compulsão é planejar banquetes para ele próprio.  Goodwin é seus braços e pernas, seus olhos e nariz: um detetive farejador de primeira, mas sem excentricidades. Uma dupla ótima, até pelos embates/conflitos que têm.  

 Rex Stout
                                                     O seu detetive Nero Wolfe 
                                                        dá show de excentricidade 
                                                  até em Holmes...


[4] E aqui não estou falando dos detetives do romance noir, que teve seus destaques com os escritores americanos como Dashiel Hamett (Sam Spade, detetive de O falcão maltês, de 1930, e Continental Op, do mesmo autor), o qual influenciou toda uma outra linha da novela policial, como o detetive Philip Marlowe, de Raymond Chandler. Detetives particulares, Beberrões. Durões, mundanos, prosaicos, sem glamour (ou mesmo sem nome, como o Continental Op, que se refere a um operador da agência de detetives Continental), a própria insipidez, a não ser por e sua rudeza exacerbada; às vezes frios, machões com as mulheres, algo desonestos e contaminados pela brutalidade e corrupção em que vivem, são criaturas feitas de outra matéria-prima. Quem sabe, vêm do Detetive Bucket, que ganha grande destaque em meio a rede de tramas de A casa soturna (1853), do inglês Charles Dickens. Entretanto, Bucket não é somente um perseguidor/farejador. É inteligentíssimo e dotado de magnífico senso de observação para identificar pistas invisíveis aos olhos comuns.


Primeira Edição em Revista de
                                                    A Casa Soturna


[5] Tem nisso excelente semelhança tanto com o detetive Monk (Tony Shalhoub), do seriado de tevê homônimo, quanto o médico House (Hugh Laurie), idem; que aliás tem várias outras semelhanças explícitas e declaradas com Holmes, a começar pelo nome e o do seu amigo, o dr. Wilson. House chega a diagnósticos usando os mesmos métodos de Holmes, e usa sua equipe como sidekicks – no caso, são os equívocos deles que o ajudam a raciocinar, até pelo prazer sádico que tem em superá-los já que, embora oprimidos, insultados e humilhados por House, são excelentes médicos, que passaram por um rigoroso processo de seleção para pertencer àquele departamento. Além disso, House é um screwed up, um, digamos, desarranjado em termos de relacionamento com mulheres. Já Monk sofre de uma espécie de autismo rara, que o torna um gênio, um milagre em forma de detetive. Possui um irmão que nunca sai de casa, como Nero Wolfe e como Mycroft, “o irmão mais inteligente de Sherlock Holmes” (que jamais sai do Clube, uma instituição feita para abrigar celibatários ingleses). Parece que a misantropia – a incapacidade de convivência com outros seres humanos – e a agorafobia – incapacidade de estar em ambientes abertos -  são excentricidades muito exploradas em detetives à la Dupin/Holmes. Monk, além disso, é um obcecado total, absoluto, por limpeza, desses que, se você pede para ir ao banheiro na casa dele, diz candidamente que não tem nenhum, para evitar contaminações, além de outras manias irritantes, que o impedem de voltar a ser um policial de carreira, seu maior sonho – ele foi aposentado da força por conta desses problemas, embora a polícia recorra a ele como consultor externo, como fazia a Scotland Yard com Holmes. Enfim, se formos rastrear recorrências, não  terminaremos de encontrá-las.

Até Machado de Assis...
vira um detetive sapeca e vai investigar um crime
no ano em que lançou D. Casmurro. Seu parceiro é o engraxate de rua, o garoto Juca.


[6] Não confundir com a caracterização do Holmes estrelado no cinema por Robert Downey Jr., com Jude Law no papel de Watson. Nada a ver com os personagens de Doyle, até porque o Holmes original não entra quase nunca em brigas físicas, raramente porta uma arma e troca tiros; enfim, não é um  personagem de ação, nos moldes de hoje. É raciocínio!  


Tony Shalhoub

Hugh Laurie


[7] Não se trata de uma leitura fácil, por culpa do que chamaríamos hoje de fora do assunto, páginas e mais páginas de divagações; mas o cerne da trama é fantástico. Vale a pena desafiar-se a ler A carta roubada!  

Chesterton

 Dashiel Hamett

                                                                                                                         Columbo (Peter Falk)

[8] Haveria, é claro, um Detetive Maigret, do belga George Simenon (1903-1989) , que resolve os mistérios penetrando na mente e na alma do suspeito. É de outra espécie. Assim como o Espinosa, do brasileiro  Luís-Alfredo Garcia Roza, que filosofa sobre a natureza humana, numa Copacabana violentíssima. E teremos ainda um outro detetive-gênio, o Padre Brown, do inglês G.K. Chesterton homem invisível, cujo poder está em sua capacidade de observar tudo, sem ser notado. Nessa mesma linha (semelhante a de Miss Marple), daquele que é subestimado por todos, inclusive o espectador, está o insuperável Columbo, magnificamente interpretado no seriado da tevê por Peter Falk. Com seu jeito simplório, um sobretudo sujo, sempre pedindo para levar sobras de comida para casa e meio caolho, ninguém dá nada por ele, até que ele se prega em cima do culpado, a quem já havia identificado faz tempo.  Bem parecido com outro que não queria chamar atenção, a não ser para a sua humildade e modéstia: o imigrante chinês,  atuando nos EUA, Charlie Chan. Não acreditava em tecnologia, nem em violência. Um gênio dedutivo, amante dos enigmas do espírito, onde buscava a motivação do crime, e daí chegava ao perpetrador. Era sempre era visto com seus (muitos) filhos: um homem de família. Ficou tão famoso que virou até seriado de tevê. Aí pelos meus dez-doze anos,  assistia a todos os episódios. Depois, perdi a pista.


Como se vê, são várias e variadas as táticas  de construção do detetive,
sempre visando ludibriar o leitor. Literatura é                                                    
prestidigitação: Alacazan! 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

                                                                                   


terça-feira, 29 de março de 2016



FREI LIBERDADE


A saga heróica de FREI do Amor Divino CANECA
e da Igualmente Heroica 
CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR




Aventura + História + Ficção 


        A Independência do Brasil foi proclamada no dia 7 de setembro de 1822 no episódio que ficou conhecido como Grito do Ipiranga... Certo?
        Mais ou menos...
        Oficialmente foi assim mesmo: "Independência ou Morte!"...


        Mas, na verdade foi muito mais que isso!
        Para termos a Independência de verdade, muitos brasileiros tiveram de lutar. Muita coragem rolou - inclusive para enfrentar os exércitos de D. Pedro, agora Imperador do país. Muitos idealistas foram sacrificados pelo ideal de Liberdade.

          É esse o caso de FREI CANECA e dos rebeldes da Confederação do Equador.

           Pernambucano. Padre. Homem de ideias - um raro Iluminista, no Brasil da época. Propagandista da Liberdade. Guerreiro.

           Conheça a história e a aventura de FREI CANECA.
           Torça, Vibre, Emocione-se...
           Com a vida - transformada em Romance e ficção -
                                                                           

                                                                                    de

           FREI LIBERDADE

                 de Luiz Antonio Aguiar

              Editora Melhoramentos





Salve, Garotada, Professores, Pais e Leitores de Pernambuco!
Em ABRIL estarei visitando vocês numa turnê de muito papo sobre Literatura, 
Palestras e Oficinas de leitura!
       
http://editoramelhoramentos.com.br/v2/titulos/frei-liberdade-sonhos-e-lutas-da-independencia/

Pesquisa da Melhoramentos sobre a Confederação do Equador e o livro "Frei Liberdade":
http://melhoramentosmail.comercial.ws/Editora/ProjetosPedagogicosOnline/FundamentalII/pdf/Frei_Liberdade/Frei_Liberdade/download.pdf

Para Comprar
Dica: Há diferenças de preço de um site para outro...  

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